17 de novembro de 2009

O que é a dança do ventre?


Para começar: é dança do ventre ou Dança do Ventre? Dança do Ventre ou Dança Árabe? Dança Árabe ou Middle Eastern Dance? Middle Eastern Dance ou Raks el Sharki? Raks el Sharki ou Belly Dance? Belly Dance ou bellydance? Minha gente, isso importa?

As pessoas que estudam dança gostam de definições "toscas e bizarrescas" (para utilizar o título de um blog super interessante) para se apegar! Por sinal, a história da dança parece mais um agregado de almanaques de fofocas e outras informações que só interessam aos dançarinos que aparecem nelas. Muita gente de prestígio aponta que os críticos de dança foram os grandes responsáveis pelas compilações a respeito da dança ocidental. Eles e seus juízos e gostos. Porque se ficasse registrado que algo não era bom, ou que era maravilhoso, isso entrava para a história oficial.

Mas pra que estou me perdendo tanto? Para dizer que com a dança do ventre não é diferente. Aliás, pesquisar a dança do ventre é estar sempre à beira de uma armadilha. Eu caí em uma arapuca bem montada quando em 2005 saí divulgando que a "primeira" mulher a dançar a dança do ventre no mundo ocidental havia sido uma tal de Little Egypt. Me dei mal. A fonte de onde eu tirei a informação tinha citado outra fonte que citava a mesma fonte anterior. Estranho não? Uma metacitação? Tipo: eu combino com a Paula Cunha que a gente vai publicar que "não-sei-quemzinha" foi a primeira pessoa a dançar Khaleegee no Brasil. Aí eu coloco a Paula como minha fonte e ela me coloca como fonte dela. Foi tipo assim que aconteceu. Ainda bem que encontrei uma fulana disposta a desmentir essa história. Donna Carlton publicou um livro muito bem documentado, "Looking for Little Egypt". A conclusão: Little Egypt foi uma farsa bem montada!

Quando lancei a enquete "o que é dança do ventre", não imaginei que os resultados seriam aqueles. Ainda bem! Surpresa... 39% das pessoas afirmaram que a dança do ventre é uma dança árabe.

Ora, pessoal, e os outros? A Grécia, o Irã, a Turquia... A dança do ventre não é uma dança árabe, a cultura árabe faz parte dela, mas não a engloba. Ela vai além... Péeeeeinnn!!! Resposta errada!

32 % disseram que é uma dança sensual. Concordo! Bingo! É também.

As outras opções não foram muito expressivas, e algumas eram provocações.

Apenas 17% acertaram, respondendo a famosa NDA (nenhuma das anteriores). Por quê? Porque nenhuma das anteriores de fato consegue definir o que é a dança do ventre. Gosto da minha definição de que a dança do ventre é um "além", não se restringe a ser árabe, oriental, ocidental, sensual, porém é tudo isso e não é nada disso. Mesmo assim vale destacar algumas definições que considero bastante aceitáveis, principalmente do ponto de vista de quem define. A melhor de todas, para mim, é a de Anthony Shay:

Na prática, a dança solo improvisada, tanto para homens quanto para mulheres, é a forma primária de dança, com muitas variações individuais e locais, por todo o Egito. Essa forma de dança é talvez a mais mal interpretada tradição de dança no mundo. Em uma de suas numerosas formas é conhecida como dança do ventre, ou danse orientale ou raqs sharqi, como seu praticante preferir.

Adoro isso: "dança solo improvisada". Mas, novamente não basta. Estive recentemente em um palco. Experiência intensa, boa, excelente! Eu fiz uma dança solo quase improvisada, mas tinha ao redor um corpo de baile e diversas outras danças que compunham o espetáculo. Mais uma vez a dança do ventre vai além. Ela pode ser recriação de muitas coisas. Vi coisas lindas se materializando diante de mim: deusas egípcias da antiguidade representadas de inúmeras formas, mulheres lindas de todas as idades e tipos físicos se deleitando ao dançar, brincadeiras entre uma bailarina e um músico egípcio, que deixaram a platéia extasiada! Lindezas que só a dança do ventre é capaz de fazer. Viva o Ayuny (escola onde tenho dado aulas)! Viva Ankh (o espetáculo da escola)! Viva a dança!

E até a próxima enquete e o próximo post.

29 de outubro de 2009

O Silogismo é a Lógica do Extremista!


Uma amiga que está morando na Itália me enviou essa semana um email falando sobre "casamentos pedófilos do Hamas". O texto, mal escrito por sinal, continha explícitas referências preconceituosas em relação aos muçulmanos. Como dizia que a fonte da notícia era de um blog jornalístico, pensei: "Pôxa vida, esses jornalistas precisam de uma dose de antropologia para que se manifestem de um modo mais adequado". O artigo ainda vinha ilustrado com fotos e vídeos, mostrando noivas mirins com seus maridos na faixa dos 25 a 30 anos, crianças sofrendo abusos e relatos sobre o incentivo de tais práticas.

Fala sobre a mutilação genital e apresenta dados estatísticos sobre abusos contra crianças no Egito e na Jordânia, além de um suposto discurso do Aiatolá Khomeini. O tal discurso poderia ser comparado à tentativa de recriação de um trecho do kama sutra para pedófilos. Pesquisei na internet e encontrei o mesmo texto publicado na íntegra no blog "Salvação", cuja logomarca é uma cruz, que por alguma razão me fez lembrar da Ku Klux Klan. Procurei a fonte jornalística anunciada no blog, mas não encontrei. Até porque ando meio sem tempo. No site principal não havia um link disponível e pesquisar poderia demorar, se alguém quiser fazer isso, depois me manda o link, ok?

O que importa dizer aqui é aquilo que me fez parar de estudar para atualizar meu blog querido. As falas generalizantes que colocam TODOS os muçulmanos, TODOS os Árabes em um saco com o rótulo de "fanáticos religiosos", "terroristas" e agora "pedófilos" são pérfidas e apenas contribuem para que o senso comum fique recheado de preconceitos e sentimentos ruins, tendo a certeza de se tratar de verdade absoluta pois, ora bolas, está publicado e a fonte é jornalística! Para justificar tais idéias utilizam trechos de biografias deslocadas no tempo e no espaço. Justificaram a pedofilia, por exemplo, dizendo que Maomé se casou com uma menina de 6 anos. Esqueceram de dizer que isso aconteceu há mais de um milênio em um contexto cultural, social, político, geográfico e religioso completamente diferente do atual.

Pensei com meus botões que esse artigo fez algo horrendo e consegui alcançar uma analogia que me satisfez. O que o artigo sobre o Hamas faz, se compara a dizer que a pedofilia na Igreja Católica foi incentivada pela famosa frase de Jesus "deixai que venham a mim as criancinhas". Pode ser que eu seja atacada por algum fanático religioso após essa postagem, mas quem tiver o mínimo de inteligência saberá o que quero dizer com essa analogia. Mesmo assim, dou uma ajudinha para os menos favorecidos: podemos justificar qualquer coisa com qualquer argumento. É a famosa armadilha do silogismo: Maomé se casou com uma menina de 6 anos; casar-se com uma menina de 6 anos é pedofilia; logo: Maomé era pedófilo! E mais: Maomé é o pai da religiao islâmica, Maomé era pedófilo, logo: os muçulmanos são pedófilos.

Posso até ir mais longe. O que justifica os abusos contra crianças no Brasil? Alguma seita religiosa? NÃO! Por que existem casamentos de crianças na Índia? Porque eles são muçulmanos? NÃO! Por que um senhor de 112 anos se casou com uma adolescente de 17 na Somália? Será que a moça é gerontófila? NÃO! Por que alguns (muitos) pais fazem sexo com suas filhas? Porque gostariam de ser os Faraós do Egito? NÃO! Melhor parar por aqui...

Por fim, gostaria de anunciar que minha próxima postagem irá discutir os resultados da enquete que se encerrou há tempos sobre "o que é dança do ventre". Um assuntinho mais light! Até lá, queimemos nossos neurônios! Salam!


24 de setembro de 2009

Eu, eu mesma e os livros...

Estou empolgada com uma série de coisas, estudando muito e criando também.
Os livros me consomem, mudei de casa, muitas coisas mudaram... Por isso ando ausente do blog.
Pena!
Mas retorno em breve.

Estamos montando um espetáculo lindo no Ayuny, estreará no dia 22 de novembro.
O tema de minha dança é a deusa Isis e eu vou encarnar seu inimigo Seth. Está de acordo com meus sentimentos confusos do momento: Seth é um ser ambíguo que representa a dualidade humana e as lutas entre o bem e o mal. Estou me sentindo identificada com ele. Propensa a maldades e também a buscar o melhor dentro de mim.

Volto logo aqui para postar algo de qualidade para que vocês possam desfrutar.

30 de julho de 2009

A Mulher Invisível


Talvez não seja uma alegoria a invenção de uma super-heroína com esse codinome. A invisibilidade histórica feminina é um dos desafios da historiografia contemporânea, que tem buscado discutir as universalidades e localizar os excluídos das narrativas sobre o passado. A categoria Gênero surge no século XX para dar conta dessas discussões e uma das vertentes, chamada fenomenologia do mal no feminino, foi divulgada no Brasil pela pesquisadora Ivone Gebara. Ela mesma foi banida da igreja por desenvolver estudos teológicos sobre a natureza do mal relacionado ao feminino. Em seu livro Rompendo o Silêncio: uma fenomenologia feminista do mal (2000), a autora defende a idéia de que é preciso falar sobre o que nos oprime. Segundo suas palavras: "É pela memória que liberamos a palavra, que deixamos os mortos falar, que revivemos sofrimentos para denunciar o que nos impede de viver com dignidade" (p.48).

Mulheres como Eros Volúsia e Luz del Fuego no Brasil, Alessandra Belloni - italiana radicada nos Estados Unidos, Fifi Abdou - Egito, e Chandralekha - Índia, tornaram-se alvos de condenações pelo simples ato de incorporar a plenitude do feminino em seus trabalhos artísticos. Shahrazad - Palestina radicada no Brasil, também pode ser citada como exemplo. Todas elas encontraram a barreira inicial do ser mulher, o preconceito social do ser artista e um processo que costuma ser chamado de "demonização" porque abordaram temas femininos em seus trabalhos criativos. Para que vocês entendam melhor o que quero dizer, vou colocar abaixo uma resumida biografia de cada uma delas:

Eros Volúsia (1914-2004) - criadora de um estilo próprio que buscava resgatar a brasilidade, foi uma mulher revolicionária e é atualmente pouco lembrada e incompreendida. Abandonou a carreira prematuramente, devido a uma forte desilusão sobre suas perspectivas profissionais. Em 1941 foi capa da revista Life (foto).





Fifi Abdou (1953) - considerada uma das mais expressivas dançarinas do Egito, apresenta em suas danças o despojamento da sexualidade feminina. Porém, para ser valorizada como artista, em seu discurso se define como atriz e não como dançarina. Além disso, muitas profissionais da dança do ventre expressam sem nenhum constrangimento suas resistências ao trabalho dessa artista, desconsiderando seu talento por causa de suas performances espontâneas e extravagantes.





Luz del Fuego (1917-1957) - A "bailarina do povo" foi a precursora do feminismo e do naturismo no Brasil. Assumiu uma postura de vanguarda e enfrentou diversos preconceitos. Chegou a ser internada em manicômios por sua família, que não aceitava seu modo de viver e encarar a realidade. Foi assassinada quando vivia em retiro em sua ilha particular - a ilha do sol - onde criava animais e praticava o nudismo. Seu assassino - um pescador, não aceitou a recusa sexual de alguém que vivia nua e cercada por cobras. Ele interpretava a liberdade daquela mulher como um convite explícito ao sexo e, ofendido por ter sido rejeitado, a esfaqueou e jogou seu corpo no mar.





Alessandra Belloni - cantora, percussionista, dançarina e atriz, é uma das vozes mais importantes das tradicionais danças e músicas do sul da Itália. Seu trabalho consiste em resgatar tradições e rituais por meio de criação musical e produção teatral. É diretora da trupe "I Giulliari Di Piazza" em Nova Iorque desde 1979. Enfrentou sérias resistências a seu trabalho de resgate do papel feminino na Tarantela, principalmente por parte de mulheres jovens italianas.





Shahrazad - nascida em Belém - Palestina, de nome Madeleine Iskandarian iniciou sua carreira como dançarina aos sete anos de idade. Veio para o Brasil em 1979 e desenvolveu um trabalho de divulgação do que ela chama "dança do leste" também conhecida como dança do ventre. Passando por períodos de angústia ao ver seus ensinamentos deturpados país afora, atualmente sobrevive vendendo vídeos e livros. Algumas de suas ex-alunas desenvolveram carreiras de sucesso, enquanto a mestra, pioneira na abordagem dessa dança no Brasil, muitas vezes sequer é citada.






Chandralekha - renomada dançarina e coreógrafa que revolucionou e revitalizou a dança indiana. Na década de 1960 sofreu grande desilusão, sentiu-se desvalorizada e abandonada. Voltou-se para questões humanitárias e feministas. Lutou pelo ideal de reinterpretar o corpo e com coragem reinventou a identidade das mulheres artistas na Índia, com muita dificuldade. Em 1985 retornou ao cenário da dança, desenvolvendo um trabalho com identidade própria.




Essas mulheres são provas (vivas ou mortas) de que ser mulher, artista e abordar o feminino não é fácil. Sofreram resistências, discriminação, oposições, opressão, todo tipo de angústia, desgosto, desconforto... Por isso, quando encontro um blog como o da Liana (citado no post anterior), fico triste. Penso que devemos dar visibilidade a histórias como as dessas mulheres que lutam. Dar voz a suas lutas e danças. Como diz Sara Lopes na tese Diz isso cantando! - A vocalidade poética e o modelo brasileiro (1997):

A necessidade de algo concreto nas palavras associa-se à paixão do processo criativo do artista: as palavras devem ser os sentidos, devem ser as emoções para poderem revelar a profundidade da condição humana (p.29).

Sendo assim, cara Liana, aqui me despeço de você e desejo do fundo do coração que sua amargura seja curada e você possa usar suas palavras com melhores finalidades. Namastê!

19 de julho de 2009

Dialogando com o Blog da Liana


Dia desses recebi um email de uma conhecida que indicava a leitura de um texto sobre dança, mais precisamente um post sobre dança do ventre em um blog. O nome do blog é bastante sugestivo: Life is a Drag. A autora é uma loira, chamada Liana. Fake ou não, Liana é bastante corajosa em expor tudo o que pensa sobre o mundo, as pessoas e o universo. Dei uma olhada no post sobre dança e em outros sobre as mulheres. E resolvi abrir um espaço aqui para dialogar.

Liana, você me trouxe à lembrança um pré-projeto que escrevi em 2001 onde eu me propunha a resgatar a dignidade da dança feminina. Peguei o velho esboço, estou com ele aqui no colo e decidi que é um bom momento para publicar algumas das idéias que estavam ali e que não tiveram espaço para se desenvolver - o projeto foi rejeitado pelo Programa de Pós-Graduação em História da UnB.

Na introdução eu dizia que minha experiência como mulher e artista era repleta de tensões, conflitos e questionamentos, que os anos de pesquisa gestual sobre o universo feminino no contato com as danças de orixás e na prática da dança do ventre me proporcionaram a percepção de que algumas manifestações femininas vinham sofrendo processos de descaracterização. Em 2001 identifiquei que esses processos consistiam basicamente no esvaziamento de sentido, na vulgarização e/ou na apropriação masculina dos papéis que eram essencialmente femininos.

No texto utilizei citação retirada do artigo "De Iyá Mi a Pomba-Gira: transformações e símbolos da libido" de Monique Augras, onde a partir de imagens míticas que se referem ao poder genital feminino a autora afirma que a difusão das representações brasileiras contidas nas religiões de origem africana

têm sofrido processo de progressiva pasteurização(...). Assim é que os
terreiros tradicionais de candomblé mantêm o culto dos deuses em toda

sua complexidade - embora de modo bastante discreto no que se refere

aos aspectos mais ameaçadores da sexualidade feminina -, enquanto a

umbanda parece ter promovido, em torno da figura de Iemanjá,
um
esvaziamento quase total do conteúdo sexual. (2000: pg.15)

Além desse trecho, citei as lutas travadas por algumas mulheres para conservar ou resgatar tradições e rituais em oposição à postura de outras mulheres que se comportavam como agentes opressores. Chamei esse comportamento de "aderência" ao opressor, referindo-me a termo de Paulo Freire e dei como exemplo o trabalho de Alessandra Belloni para resgatar a Tarantella da Calábria Italiana como dança ritual erótica e selvagem de purificação e cura. Belloni encontrou entre suas maiores opositoras as mulheres jovens, por incrível que pudesse parecer. Essa rejeição fortaleceu o trabalho dessa cantora e dançarina genial que passou a refletir sobre a necessidade de libertar essas jovens mulheres das teias sociais de repressão que elas mesmas ajudavam a tecer.

Não foi difícil pular da teia de Alessandra Belloni para a de Freud que em psicanálise abordou o "enigma da feminilidade" sugerindo que as mulheres inventaram a tecelagem para cobrir sua nudez e esconder o que nada tinham a esconder, utilizando a imagem da aranha que tece para representar o símbolo da mãe fálica.

Onde quero chegar com tudo isso, prezada Liana? Você já já vai entender... Após passar por Freud, dou uma parada na psicologia moderna para falar sobre a resistência ao arquétipo da grande mãe, utilizando para isso um texto de Carlos Byington: Dimensões Simbólicas da Personalidade (1988). Esse autor diz que a Inquisição causou uma dissociação entre a objetividade e a subjetividade, transformando os componentes subjetivos do saber em crenças supersticiosas e fontes de erro, enquanto o pólo objetivo tornou-se a única fonte possível de verdade. Em seguida, Liana, chego perto de você: afirmo que os obstáculos encontrados pelas mulheres que ousam trilhar o caminho que leva ao resgate da figura da grande mãe são variados e incluem a depressão, o desânimo e a discriminação. Você ainda foi além porque agregou os fatores competição e destruição! Parabéns! Só que... Pelo que pude notar, você não está do lado do feminino ao se posicionar, mas contra ele. Estranhei, mas cada um se manifesta como quer e pode. Aliás, eu deveria ter desconfiado quando li os slogans em seu blog "Pela volta dos loucos ao hospício" e "Só a lobotomia salva". Repito: corajosa essa tal de Liana! Em plena era de movimento antimanicomial (da qual sou adepta), levantar uma bandeira dessas requer bastante coragem. Pode também ser um pedido de ajuda, não? Porque a depender da interpretação, uma das primeiras a vestir a camisa-de-força seria você mesma, querida. Estou enganada? Nem me atrevo a negar que eu estaria também entre os primeiros candidatos a ocupar o pinel!

De todo modo agradeço a oportunidade e anuncio que o próximo post deverá continuar nessa linha, porque quero falar sobre mulheres maravilhosas que amargaram em suas vidas e carreiras simplesmente porque optaram por trilhar o caminho do feminino. É o caso de nós duas, colega Liana. Ainda bem que peguei uma bifurcação e meu caminho separou-se do seu há algum tempo!


7 de julho de 2009

O Fácil é o Certo, já diziam os Titãs... *


Gosto de usar certas frases dos Titãs durante a minha vida, porque considero que elas sintetizam meus estados de espírito... E no momento, ainda que a inspiração deles tenha sido o pensador chinês Chung Tsu são as vozes titânicas cantando “o fácil é o certo / o certo é o fácil / o fácil é o certo” que não me saem da cabeça, depois de pensar sobre a dança do ventre e treinar certos movimentos. Parece óbvio para mim que quanto mais esforço eu emprego, pior sai minha dança. Difícil é ensinar isso! As pessoas estão acostumadas a “no pain, no gain” (sem dor não se ganha nada). A lei do maior esforço contaminou a mente contemporânea. Mas quando o assunto é dançar, sou pela lei do menor esforço.


Em sintonia com meus pensamentos encontrei o DVD Power Wave de Gabrielle Roth, uma pesquisadora e dançarina estadunidense que realiza há muitos anos um trabalho notável na área de dança. Sua onda poderosa, como denomina seu método de dançar, requer tudo, menos esforço. No DVD onde demonstra os cinco ritmos em que divide seu método, constantemente ouvimos a voz de Gabrielle repetindo “suave”, “sem esforço”, “deixe fluir”, “não se extenue”, “não se canse”... E por aí vai...



Muitos dos movimentos que aprendi ao longo de minha vida como dançarina só foram realmente assimilados quando relaxei. Enquanto me mantive tensa, com toda a musculatura arduamente envolvida na atividade, o máximo que alcancei foram lesões. Perceba-se aprendendo. Se estiver muito difícil, não está certo. Tem alguma coisa errada com o método. Não é com você o problema. Geralmente é com quem está ensinando. Por isso sempre fui a favor da iniciativa autodidática. Apesar das desvantagens de se estar sozinho, é mais provável que você consiga se respeitar e reconhecer limites, saber o que funciona melhor e buscar o andamento mais apropriado para se desenvolver. “Faça o que está fazendo / Não o que estou lhe dizendo”, novamente a música...


Os Titãs se inspiraram na frase de um pensador chinês do século III; Gabrielle Roth pesquisou várias culturas orientais e foi meditadora, adepta de Osho, assim como eu. Talvez seja necessário levar a sério o oriente para alcançar a transcendência. Orientar-se! Finalmente, ainda com a música em mente, deixo outra mensagem deles para encerrar o assunto: “Tanto faz como se chama / Entregue-se ao que você ama”.





*Publicado anteriormente na coluna do site Tribos de Gaia

27 de junho de 2009

Fita Amarela


Fernanda Abreu em um programa da Globo News disse que Michael Jackson tem o mesmo valor de uma Isadora Duncan para a História da Dança. Eu, que sempre fui fã do aclamado rei do pop, nunca tinha pensado assim. Mas concordo com essa afirmativa. Principalmente depois de ouvir o depoimento de Deborah Colker a respeito de como ele se expressava quando dançava, do uso das várias partes do corpo, da criatividade e inovações.

Falar de Michael é complicado, não tenho o devido distanciamento. Quando criança imitava seus passos, até a idade adulta ouvia e cantava suas músicas. Ainda canto. Lembro de um especial sobre música onde João Marcelo Bôscoli dizia que Billie Jean é a melhor música de todos os tempos e que ele evitava ouví-la para que não perdesse o encanto. Passei a imitar João Marcelo. Concordava com ele. Lamentei muito o período de decadência de Michael Jackson. E agora me assombro com a proporção que tomou a notícia de sua morte. Gostaria que as pessoas tivessem feito tudo aquilo antes de ele morrer. Cantando nas ruas, imitando o ídolo, se descabelando, chorando, gritando, permanecendo em silêncio. Agora não adianta nada. Pelo menos eu não acredito que ele esteja assistindo a todas essas manifestações. Não sou espírita. Seja como for, preferia que ele tivesse morrido consciente de sua importância histórica. Acredito que nem ele tenha pensado em sua contribuição para a história da dança, tampouco sobre seu status de transformador de estéticas à altura de alguém como Isadora.

Pensei que pudesse passar incólume a toda a comoção de sua morte. Mas como membro da área de dança, não tenho o direito de fazer silêncio agora. Não vou também ficar arrancando meus cabelos e não cheguei a derramar lágrima, embora tenha ficado com os olhos cheios delas em alguns momentos. Fiquei triste sim. Mas coloco o assunto aqui, muito mais no sentido de despertar reflexões. Também não vou postar fotos dele no blog. Mesmo porque não saberia escolher uma foto que o representasse dignamente nesse momento. Enfim, fica aqui minha contribuição. Sem muitas delongas, sem choro, nem vela, nem uma fita amarela. Se bem que Fita Amarela, a música de Noel Rosa, bem cabe nesse espaço. Observem como pode se aplicar ao caso:

Quando eu morrer

Não quero choro nem vela

Quero uma fita amarela

Gravada com o nome dela


Se existe alma

Se há outra encarnação

Eu queria que a mulata

Sapateasse no meu caixão

(Oi, sapateia, oi, sapateia)


Não quero flores,

Nem coroa com espinho

Só quero choro de flauta,

Com violão e cavaquinho


Estou contente

Consolado por saber

Que as morenas tão formosas

A terra um dia vai comer


Não tenho herdeiros

Não possuo um só vintém

Eu vivi devendo a todos

Mas não paguei nada a ninguém


Meus inimigos

Que hoje falam mal de mim

Vão dizer que nunca viram

Uma pessoa tão boa assim


Quero que o sol

Não visite o meu caixão

Para a minha pobre alma

Não morrer de insolação




22 de junho de 2009

Dançar é...


Ontem vi as chamadas para o detestável "A Dança Pega" e deu uma coceira nos dedos para postar aqui mais críticas em relação ao tal programa. Insatisfeitos em esculhambar somente a prática, agora resolveram atacar a parte conceitual da arte de dançar. Colocam frases do tipo "dançar é ser livre", "dançar é sensual", "dançar é o máximo!" e outras maravilhas do marketing contemporâneo. Já não bastava ser a exibição de um programa de 2006? Pensam o quê? Que porque somos brasileiros podemos consumir seus enlatados vencidos em canais fechados de televisão? Pagamos para ver aquelas performances de péssimo gosto em uma competição? Nunca fui a favor das competições de dança. Porque quem perde sempre é a dança. Sem contar a autoestima dos dançarinos que escorre pelo ralo em situações como esta. Não sei se vocês viram, mas houve um programa onde um jurado falou para um dos concorrentes que ele dançava tão mal que deveria ter vergonha e nunca mais se apresentar em público. Uma pessoa que emite uma opinião dessas deveria ser banida dos meios de comunicação. Mesmo o mais desengonçado dos seres humanos tem o direito de dançar e também de se apresentar em público. Mas o que importa nem é isso. Importa muito, para mim, o fato de mais uma vez a dança ser utilizada como veículo para destruir a autoestima das pessoas, instrumento de tortura física e psicológica (física sim, porque muitos saem lesionados dessas malditas competições) e arma para julgar, rotular, qualificar, valorar pessoas e seus corpos, ahhhhh... Que @#%$¨¨$%$!!!!!!!...

Bem, para descontrair, proponho que vocês, em seus comentários completem a frase:
Dançar é...

12 de junho de 2009

Baba Zula: estou babando!


Que tipo de cegueira ou idiotice se apossou de meu ser nesses 13 anos durante os quais permaneci ignorante da existência de um grupo como o Baba Zula? Saber da atuação de artistas dessa magnitude na Turquia teria me poupado saliva quando abria a boca e desgastes nos dedos quando teclava para criticar a estética turca de dança do ventre.

Baba Zula surge como um oásis em meu deserto de informações, demonstrando ser possível manter a estética da dança do ventre e aliar música, artes visuais, performance art, poesia, teatro de animação, computação gráfica, inovações de figurino, em apresentações ritualísticas com um look pra lá de contemporâneo. E fazem isso desde 1996!

Graças a um scrap de uma amiga preciosa de orkut, também ávida pesquisadora da área, pude saber da existência de um movimento artístico-cultural belo, inovador que me enche de esperança, inspiração e vontade de conhecer pessoalmente essas criaturas dotadas de uma energia impressionante!





Eu, que estava prestes a melhorar meus conhecimentos sobre a língua árabe para fazer nova incursão ao Egito, penso que talvez seja o caso de estudar o idioma turco e voltar minhas atenções e economias para uma visitinha a Istambul. Vamos?

Para saber mais sobre Baba Zula: www.babazula.com

4 de junho de 2009

ENTREVISTA COM MAHMOUD AL-MASRI


Com mais de um ano de atraso, publico aqui a entrevista que realizei com esse egípcio fascinante para meu livro, porque até agora não consegui finalizá-lo para a publicação e considero muito importante divulgar essas informações preciosas que consegui. Obrigada, Mahmoud!


20/03/2008


Mahmoud El Masri é o nome artístico de Mahmoud Hassabou, um egípcio radicado no Brasil há 28 anos. Com excelente pronúncia e apenas um resquício do sotaque árabe, devido à longa permanência no Brasil, Mahmoud falou com propriedade sobre a dança do ventre em uma entrevista de pouco mais de uma hora de duração.

Segundo Mahmoud, falar sobre dança do ventre é algo muito complexo. Principalmente no Brasil, onde muita gente se ofende com as críticas desse egípcio que é um profundo conhecedor dessa arte milenar. Ele considera um privilégio poder falar abertamente sobre todos os assuntos aqui e compara nossa liberdade de expressão às restrições de seu país de origem. “Na minha terra isso é uma coisa um pouco mais rara, mais difícil... Poder expressar da forma que a gente se expressa aqui. Então se eu vivo aqui, um dos maiores motivos é que eu me sinto mais livre, sou um cidadão e posso falar, elogiar, reclamar e me expressar”. Seguem os trechos principais da entrevista.


Sobre o ensino da dança do ventre nos países árabes

Em primeiro lugar, em vários países árabes a dança do ventre era e ainda é proibida. Onde não havia proibição, o ensino dessa dança foi realizado tradicionalmente pelos homens e não por mulheres. Eram coreógrafos. Existiam apenas coreografias. Não existiam professoras porque a dança do ventre, a meu ver, é a dança da sensualidade, e a sensualidade ninguém ensina. Acho que cada mulher no momento em que está dançando tem sua linguagem própria, seu jogo de quadril, o uso das mãos, sua expressão, cada uma tem um olhar diferente, um sorriso diferente, tem seus passos específicos, tudo é diferente. E se uma professora quiser que ela dance igual a ela, ela perde todo o lado sensual da dança. Há alunas que se destacam, mas isso não quer dizer que precisam ser lapidadas. Acho que se pode lapidar sim, mas o principal é a sensualidade. A dança também pode ter uma conotação sexual, dependendo do tipo de dança. Até pode ser dança do ventre, se a pessoa quiser dançar para o marido ou namorado num quarto, acho que tudo é válido. Vivemos num país diferente, num país livre, cada um faz o que quer. Expressamos muito as opiniões aqui, eu acho que a questão do sexo no Brasil é mais esclarecida, sem dúvida. Os pais conversam muito sobre sexo com os filhos, nas escolas existem aulas sobre isso, propagandas do governo federal. Em comparação ao mundo árabe o Brasil é muito mais aberto em relação a isso.

Para nos referirmos à dança do ventre que é dirigida ao público em geral, é necessário perceber o que há ao redor dessa dança: tradição, costumes, hábitos, modos de dançar, maquiagens, música, ritmo, harmonia, luz, som, palco, platéia. Aqui no Brasil não há essa preocupação. Aqui é a professora, a aluna e ponto final. Considero muito pobre essa visão. O ensino da dança não pode de maneira nenhuma ser rígido. Pode até haver uma rigidez em relação aos horários, essas coisas básicas. Mas expressar uma alegria, eu acho que isso não se ensina. A pessoa sorri espontaneamente, e quando a gente sorri espontaneamente o sorriso é muito mais bonito do que se uma pessoa te ensinar a sorrir. Então são coisas totalmente diferentes. Sentimento ninguém ensina. Essa alegria vem de dentro.


Opiniões críticas sobre a prática da dança do ventre no Brasil

Aqui, algumas vezes, as dançarinas estão mais preocupadas com a estética corporal, em usar roupas transparentes e então fogem da tradição, do costume, acabam caindo na vulgaridade. A dança acaba perdendo a beleza de ser tradicional e estar em um país totalmente democrático. Aqui não existem tradições tão antigas. O Brasil tem 500 anos de idade, é um bebê perante o mundo inteiro. E aqui temos misturas de todo o mundo. Por isso tem gente bonita. Misturas de culturas que procuram preservar as tradições. No sul, os descendentes de alemães e italianos quando em suas danças típicas mantêm a tradição. Não alteram suas roupas típicas achando que precisam mudar os costumes porque vivem num país livre. Nas colônias alemãs as maquiagens, trancinhas nos cabelos, vestidos longos e bem grossos, permanecem sendo utilizados. Até por causa das temperaturas frias da Alemanha se dança com aquelas roupas. E mesmo vivendo no calor daqui nunca substituíram as roupas por algum tecido bem fino... Com as outras culturas acontece a mesma coisa, seja entre os japoneses, chineses, latinos ou russos que estejam morando aqui. Mas quando o assunto é dança do ventre acontece a falta de respeito às tradições. Arrasam a dança. E quando eu tento expressar minha opinião algumas dançarinas respondem que aqui é um país livre e democrático... Muitas delas só se preocupam em se mostrar super sexy... Mas se perguntarmos aos casais e outras pessoas do público o que eles pensam sobre a dança do ventre, muitos vão dizer que é vulgar. Algumas mulheres não querem que o marido assista ao show porque muitas bailarinas quando dançam exibem uma sexualidade que incomoda. Acho que essa mentalidade estragou a dança do ventre aqui no Brasil. E acabou estragando a dança nos próprios países de origem. Estão viajando daqui para lá, com o objetivo de estragar por lá também. E conseguem, tentando dizer que é uma abertura...



Da relação entre professoras e alunas

Em minha opinião, a dança do ventre não chega a ter nem dez passos. Mas para prender as alunas, as professoras demoram anos para ensinar esses dez passos. Agora, eu me pergunto: quem tem mais dificuldade? A professora ou a aluna? Eu não sei. Porque se em um ou dois anos não aprendem dez passos... A professora não consegue ensinar dez passos em dois anos... E isso é um tempo médio, tem gente que demora três, quatro, cinco anos e quando vai dançar ainda não consegue. Outras aprendem, mas quando você olha, elas não estão dançando, são cópias das professoras. Até o sorriso é igual, até o andar é igual. Querem imitar a professora. Aí, quando estão dançando elas não existem, são outras pessoas...

As bailarinas querem modernizar a dança do ventre, mas escolhem nomes artísticos entre os nomes árabes tradicionais. Por que não passam a usar nomes modernos, cibernéticos? Desmoralizam a dança, mas querem ser tradicionais em alguns pontos. Existem muitos equívocos em relação à dança do ventre.

Eu ministro um workshop, mas ele é único. Não dá pra repetir porque não há mais nada o que ensinar. Apenas um já é suficiente. A dança surgiu, foi criada e desenvolvida e está aí. Esse ensinamento é único. Não tem mais o que inventar. É como as notas musicais. Só precisamos de sete notas para compor uma música, na escala tradicional. A dança do ventre é simples assim. Como o alfabeto que já é suficiente para comunicar. E a partir desse repertório temos a possibilidade de criar. É isso que vale! Aperfeiçoar o que você tem, o dom que você tem. Aprenda o básico!


A importância da música e das tradições

No caso específico da dança do ventre, música e expressão corporal nunca podem se separar. São duas coisas em fusão. A harmonia depende das duas coisas juntas.

No Brasil, com essa tendência de misturar várias manifestações acontecem coisas inadequadas. O khaleege, por exemplo, passou a ser uma dança separada, mas não existe kaleege separado. É um folclore onde não existem danças individuais. Esquecem-se das tradições, não estudam o contexto cultural dos países onde as danças são praticadas. Procuram se informar apenas sobre o que está na moda em termos de dança e pronto! Tudo o que movimenta o corpo é considerado dança e fim de papo! Não é por aí. Têm que saber história, tradição, costumes, hábitos. A falta desse aprofundamento dá margem à criação desses equívocos como o que acabei de citar.

No nordeste do Brasil, as mulheres ficam na beira do rio cantando, existem os repentistas, os homens na lavoura... E no mundo inteiro existem esses cantos, alguns para passar o tempo, etc. Até os soldados, cantam em seus treinamentos. Exércitos do mundo inteiro cantam. A música está em qualquer lugar onde a gente anda. Muito importante e as outras coisas se encaixam nela. Os sons... Tudo é musica.


Sobre os problemas do aprendizado e outros comentários

Acho que nós somos modernos, tentamos ser modernos, mas existe o lado racional de pensar, entender. Eu vejo tanta gente inteligente aprendendo dança do ventre, mas eu calculo assim: existem muitos tipos de seita que tentam conquistar adeptos com falsas promessas. Alguns são enganados por essas seitas ou por pessoas, de todas as formas. Às vezes uma pessoa quer vender alguma coisa e te engana. Mas a gente tem que prestar atenção. Se eu for enganado em algum lugar, vou ter mais cuidado em relação àquele lugar. Mas eu vejo muita gente aqui que fala que tem tantos anos aprendendo a dança do ventre e tem vergonha de se apresentar, diz que não sabe dançar, nunca dançou. Eu vejo como se essas pessoas estivessem sendo enganadas. E o tempo passa, mundo anda e ela não está percebendo isso tudo. É isso que eu vejo. Muitas bailarinas que dançam e levaram um tempão pra aprender a dançar.

Não quero falar muito sobre bailarinas do Egito porque, como eu acabei de falar, danças do ocidente foram para lá e acabaram contaminando. Contaminaram com isso que eu digo, modernizaram, colocaram o lado sexual mais importante do que qualquer coisa. Existe uma grande diferença entre a sexualidade e a sensualidade. Sensualidade é sutil e a exposição da sexualidade não é adequada para estar na dança voltada para o público. As bailarinas precisam tomar cuidado com os olhares, os sorrisos de um jeito diferente para as pessoas que assistem. Não confundir a dança com um jogo de sedução. Definitivamente a bailarina não está ali para seduzir os homens.

Então vemos as danças. Tudo bem. Aí passam a ensinar aquilo que nunca se dança. Muitas professoras falam: “vou ensinar tal dança”, mas essa dança não existe, não se dança. Ela vai ensinar para os alunos. Mas por que ela vai ensinar, se ela mesma não dança ou nunca dançou essa dança específica?

Também falam de danças folclóricas e confundem com outras danças. Temos que prestar atenção. O que é dança? Em qualquer parte do planeta terra tem gente que dança, cada um do seu jeito. Então eu não posso pegar a imagem do vizinho, que eu vi dançando na varanda, e dizer que eu vou inventar a “dança da varanda do vizinho”. Isso não funciona! Temos que selecionar as danças que encantam.


Das danças folclóricas

Existem danças folclóricas tão bonitas! São dançadas no mundo inteiro. Mas existem danças que não fazem parte desse grupo. Danças regionais de lugares tão pequenos... Não digo que esses lugares e essas danças não valem nada, não é com essa a intenção que eu falo. Eu falo porque elas não são reconhecidas artisticamente, porque têm mais ritual do que dança, propriamente. Não podemos confundir rituais com danças. Se quisermos mostrar a dança das lavadeiras, por exemplo, temos que representá-la num contexto. Não apresentar a dança como uma coisa isolada, mas como parte de uma cena específica, que pode ser elaborada artisticamente.

Vamos falar sobre o Líbano. Você sabia que hoje temos muito mais libaneses no Brasil do que no próprio Líbano? A dança folclórica libanesa é o dabke, conhecida no mundo inteiro. Uma dança marcante. Com essa dança muitas coisas são festejadas. Ela tem uma marcação forte. O dabke se criou na área do Líbano, Síria, Palestina, em todos esses locais se dança o dabke. Mas o dabke libanês é mais coreografado. A música é preparada exclusivamente para essa dança.

Temos também o saidi: dança folclórica egípcia, até as mulheres da dança do ventre dançam saidi. Aqui as pessoas preferem as danças provocativas. Então, vêm e escolhem a dança da melea laef. E o que é melea laef? Melea laef é uma coisa de respeito. Era uma roupa que se usava tempos atrás, um estilo de roupa, um véu preto enrolado no corpo. Até hoje em muitos países da áfrica usam-se tecidos enrolados no corpo em vez de tecidos costurados. Em alguns países usam a seda. São costumes. Só que a prostituição, que é uma prática muito antiga, se utilizou desse artifício para incrementar as provocações. Algumas mulheres andavam com o melea laef para os portos, aonde chegavam navios de outros países. Sempre houve muita prostituição nos portos, é uma prática conhecida. Onde tem porto, tem prostituição, desde o tempo dos profetas... Então as prostitutas iam mostrar o corpo pra seduzir os homens, com roupas de dormir por baixo... É essa a dança que se mostra aqui. Essa realidade sempre existiu.

A roupa que se usa por baixo do véu melea laef nas danças representadas aqui é uma camisola. A maioria dessas mulheres que iam aos portos usava camisola. Mas muita gente usava melea laef, não quer dizer que era roupa de prostituta. Então melea laef qualquer pessoa usava. Só que as prostitutas usavam para dançar e provocar. Também existiam outras mulheres que usavam esse tipo de roupa em danças folclóricas. Mas o que é representado aqui no Brasil é a imagem da prostituta. Não é o lado folclórico da melea laef. As duas manifestações têm a mesma origem, mas cada uma se desenvolveu de modo diferente.

Aqui, as mulheres dançam fazendo gestos para imitar aquelas mulheres dos portos, sem saber o que estão realmente representando. Não tenho nada contra que se criem peças de teatro para representar a prostituição, mas não precisa da dança do ventre. Para isso, acho que aqui existe muita abertura, existem vários locais onde se pode representar todo tipo de história. Quem quiser pode criar coreografias que mostrem as danças das prostitutas, mas, por favor, não misturem essas representações com a dança do ventre! Isso denigre a imagem da própria bailarina que está dançando e achando que está fazendo bonito. É por essas e outras que a opinião do público do Brasil é de que a dança do ventre está relacionada à prostituição... E isso não sou eu que digo não, eu quero que qualquer professora pergunte ao público o que eles acham, mas não vale entrevistar os pais das alunas, os maridos, as amigas, os familiares, as pessoas que já estão habituadas com essas apresentações. Entrevistem pessoas que não fazem parte desse universo. Quero dizer, a maioria das pessoas que assiste. O que elas vão achar? Vamos perguntar se alguma mulher gosta que o marido vá sozinho assistir dança do ventre? E por que não?


Considerações finais

Eu não concordo com a teoria de que a dança do ventre no Brasil virou moda. Não, para mim não é moda. Virou comércio, uma forma de lucrar. Mas não é moda, nem tradição. Nem sensualidade. E acho que se ensina muito mal. Por que grande parte das bailarinas não sabe que música está tocando, quem é que está cantando, qual instrumento está sendo tocado. Eu quero saber se existe um cantor que não saiba o nome dos instrumentos que estão no palco em que ele canta. Não existe isso! Quem quer ser músico tem que saber o nome dos instrumentos. O mínimo que a bailarina devia saber é o nome da música. Poucas sabem. Mas a maioria fala “eu quero dançar a música número sete!”. Dizem que não sabem o nome das músicas e acham isso normal.

Quando a gente for ensinar dança do ventre tem que ensinar primeiramente a música. Eu costumo falar que a gente dança conforme a música... Dança do ventre tem que ter musica. Se não tem música não tem dança. Pode ter música árabe sem a dança, mas não pode existir dança do ventre sem música. Veja como isso é fundamental, quem for dançar tem que aprender a música. É muito fundamental, o básico dos básicos. A primeira coisa é a música. Ela vai dar inspiração para dançar, ela vai modelar a bailarina que está na sua frente, é com base na música que se faz a coreografia, com ela a dança começa e termina. A dança ensinada no Brasil exclui a música. Consideram importante para o ensino apenas falar dos passos: shimmy, camelo, básico egípcio e pronto. Só falam isso.

Muitas bailarinas falam que é difícil aprender sobre as músicas, mas acham fácil ir a São Paulo fazer roupas novas, comprar um pedaço de tecido, pedrinhas, lantejoulas, e tal. Vasculham a cidade para comprar uma roupa, mas quando o assunto é música, enchem de dificuldades. Para mim, quem tem boca vai a Roma. Dançar é muito simples se você aprender a música. Você vai dançar sozinha, com certeza. Precisa de uma orientação, mas você pode dançar sozinha com a música, sem uma professora, sem saber nada de dança do ventre. Dançará do seu jeito, porque estará entendendo a musica. A música pode te proporcionar essa experiência. Agora imagine se você ainda puder entender o que a musica está dizendo! Imagine o que ela poderá proporcionar. Mas tem bailarina que fala “nossa essa música é uma delícia!”, mas não sabe a letra. E mesmo sem saber nada diz que é linda. Imagine se ela souber o significado do que está tocando, em cada parte o que a música diz... Todas as músicas falam alguma coisa, têm história, por isso foram feitas. Se existe letra, mais ainda. A expressão é mais clara ainda. Mas aqui não se fala sobre isso, não se entende nada sobre isso. Temos que entender como funcionam as coisas, aqui só se mexe o corpo. E quando se mexem querem fazer tudo de forma exagerada. Muitas vezes usam os pontos mais baixos que podem colocar dentro da dança como destaque. Esquecem da simplicidade, da beleza da dança, da suavidade, da sensualidade, esquecem de tudo isso. Colocam agressividade, sexualidade, exageros, vulgaridade.

Agora está na moda inventar danças exóticas para ensinar como novidade. Acho que não precisavam inventar a dança de peneirar trigo na Jordânia. Com todo respeito à Jordânia, mas o que peneirar trigo tem a ver com dança? A dança de recolher feijão da terra? Não existem essas coisas... Vamos pelo mais tradicional. Vamos dançar um dabke, por exemplo, que tem coreografias bonitas, vamos ensinar danças folclóricas árabes, egípcias, temos tantas danças folclóricas lindas, então é isso que eu quero dizer.

Eu não sei se eu peço, se eu rezo ou desejo, ou se eu imploro que possamos olhar para a dança de uma forma diferente. Devemos olhar a dança como arte. Não como quebra-galho ou algo que vai acabar com complexos de inferioridade. Tem gente que dança porque tem complexo com o corpo e a dança do ventre pode curar isso. São coisas que terapeutas vão resolver. Se quiserem usar a dança como terapia, usem, mas não com o público. Usem como terapia pra vocês. Agora não procurem expor suas terapias. Ninguém tem nada a ver com suas doenças. Muitas são doentes. A bailarina não tem que se preocupar só com ela, não. Ela tem que se preocupar com ela e com quem vai assistir à sua dança. Mas no Brasil se preocupam muito com as próprias fantasias...

Não se pode desmoralizar uma dança milenar. A dança do ventre não pertence mais aos países árabes. Ela pertence à humanidade. Nós não estamos fazendo comédia. Temos que respeitar as tradições e os costumes!

31 de maio de 2009

Meu Braço Esquerdo


Com o encerramento da enquete à esquerda, cujo objetivo era saber se outras pessoas concordavam comigo sobre o fato de que seu braço esquerdo dança melhor do que o direito, vejo-me na obrigação moral de explicar de onde surgiu tal idéia. É que há anos trabalhando com dança, assistindo a performances, vídeos, aulas, percebi que o meu braço direito freqüentemente* "desmaiava" durante algumas danças, especialmente no caso da dança do ventre.

Pensava que era coisa minha, fui até investigar se eu tinha algum problema neurológico. Uma vez um místico chegou a me dizer que minha energia vital não estava alcançando a extremidade de meu braço direito... Fiz o que pude e tratei de melhorar isso, fazer com que meu braço direito passasse a se comportar como deveria, participando ativamente dos movimentos de meu corpo. Não é fácil, devo dizer que constantemente preciso me lembrar disso e observar como anda meu pobre membro sonolento. E ainda hoje, após cerca de uma década de conscientização e trabalho árduo, de vez em quando pego o danado querendo desmaiar ou apenas se comportando como um sonâmbulo.

Se fosse um caso isolado, não mereceria espaço para comentário. Acontece que desde meados de 2001 venho observando o mesmo fenômeno estranho ocorrer com outras dançarinas. Primeiro vi algumas de minhas alunas apresentarem a mesma dificuldade em coordenar os movimentos do braço direito. Pensei que pudesse ser um problema metodológico de minhas aulas. Mas vendo alunas de outras professoras e muitas outras dançarinas de diversas formações apresentando a mesma anomalia cheguei a uma primeira conclusão. Não era exatamente o braço direito que tinha um problema. Era o braço esquerdo que praticamente "roubava a cena", vale a pena repetir: especialmente no caso da dança do ventre.

Fiquei intrigada e pensei em desenvolver uma pesquisa séria a respeito. Ainda bem que eu não me levei a sério. Por isso lancei a enquete engraçadinha que por coincidência está do lado esquerdo do blog (coisas da formatação). Ainda que o resultado não seja expressivo, surpreende que 44% das pessoas que votaram também acreditem que seus braços esquerdos dancem melhor do que os braços direitos. Só digo uma coisa: vale a pena observar! Seja qual for a explicação (estímulos do lado direito do cérebro, ou coisas do gênero), o fato de isso acontecer é no mínimo curioso. Para mim, é espantoso! E acontece muito, principalmente em improvisações.

Para finalizar, como não poderia deixar de ser, vou mudar completamente de assunto e indicar um filme de que me lembrei e que não tem nada a ver com tudo o que escrevi acima, muito embora o título tenha tudo a ver. É o filme My left foot, em portugês "Meu pé esquerdo". Nem que seja para que em uma dessas noites frias e milagrosamente chuvosas do cerrado brasiliense em plena época da seca, o filme acompanhado de um chocolate quente possa aquecer seu braço direito para que possa dançar melhor!!






*Eu sei que não se usa mais 'trema', porém sou uma conservadora e se eu tivesse uns 80 anos provavelmente ainda estaria escrevendo farmácia com 'ph', ok?

25 de maio de 2009

Eu voltei, agora pra ficar! Pois aqui, aqui é o meu lugar...


Deixando de lado a nostalgia, vamos ao que interessa porque depois de tanto trabalho acumulado que de modo eficiente coloquei rigorosamente em dia (igual ao carnê do baú da felicidade), mereço descansar, com as pernas para cima, assistindo TV. Havia prometido isso, que chegaria o tempo do "uma coisa de cada vez" como diz a música. Pois bem...

Domingo, trabalhei bastante. Quando me vi finalmente de folga, liguei a TV. Eis que diante de mim, no canal People & Arts surge uma apresentadora vestindo um tubinho com estampa de girafa. Achei engraçado e continuei a assistir. Para minha surpresa era o temido programa do qual já havia falado em outras postagens aqui. O nome dele em inglês é "So you think you can dance". Soa como aquelas frases bem brasileiras que as pessoas dizem para menosprezar alguém "ah, então a senhora acha que sabe escrever?". Pode ser que alguém pense isso de mim e me considere ousada por manter esse blog. Mas um programa de TV que se intitula "Então você pensa que pode dançar"?... Ai, ai, ai... Tsc, tsc. Debaixo da bancada dos jurados bem que podia ter um letreiro luminoso com a frase: "então, você sabe com quem está falando?". Ou melhor, "você sabe para quem está dançando?".

É como eu havia previsto. Parece com American Idol, mas os jurados são mais respeitosos, até onde eu consegui assistir. Os dançarinos selecionados se apresentam em estilos diferentes dos que costumam dançar usualmente. Vi que havia os hip hopers, os dançarinos de salão, os que dançam jazz e outros de uma chamada "dança contemporânea", cujo conteúdo era por mim totalmente ignorado até então. E eu que pensava que sabia o que era dança contemporânea... Pobre de mim. Graças à providência divina pude ter o contato com a "verdadeira dança contemporânea" apresentada na televisão estadunidense. É uma coisa meio histérica, parecida com a dança gospel (vocês já viram a dança gospel? é uma dança onde as pessoas fazem louvores ao Deus todo poderoso). Bem, pelo menos fiquei mais inteligente após o programa.

Cheguei a pegar uma prancheta para anotar os detalhes e passar para vocês, queridos leitores. Mas por algum infortúnio minha mãe me ligou exatamente na hora e me distraiu com uma conversa absolutamente deliciosa e quando retornei ao quarto onde estava a TV, já havia mudado a programação... Lamentável, não? Mas prometo que na próxima oportunidade trarei todas as informações possíveis, desde o bom gosto nas escolhas de figurinos com motivos selvagens, nas escolhas das músicas maravilhosas, dos passos de dança incríveis e outros detalhes pertinentes. Ah... Lembrei que além da programação temos no intervalo comercial o privilégio de assistir aos vídeos enviados pelos interessados em participar das versões do programa em espanhol e portugês, cujo nome continua sendo "A Dança Pega". Será que pega tanto quanto a gripe suína? Por via das dúvidas vou comprar umas máscaras...

21 de maio de 2009

Tudo ao mesmo tempo agora

Não canso de dizer que os Titãs iluminam minha vida! Estou na fase "tudo ao mesmo tempo agora". Passei aqui para que vocês não desistam de mim, sinto necessidade de explicar minha ausência no blog. Nem que eu tivesse mais tempo, meu cérebro não daria conta de postar algo realmente interessante por aqui...
Estou assim:


Preciso de um destes:


Aquela ali, embora não pareça, sou eu:


Quando chegar a fase do "uma coisa de cada vez", voltarei com todo o explendor! Aguardem!

10 de maio de 2009

As mães também dançam

Estranho começar um post com um título do qual discordo. Mas vou manter assim. Quando colocamos a palavra 'também' numa frase, de certo modo realizamos uma distinção. É como se as mães fossem diferentes de outras mulheres. Mesmo assim, deixarei que o título permaneça, a título de provocação.

Foi com a minha gravidez que tomei contato com a dança do ventre. Afinal de contas, eu estava na graduação em Dança na universidade e tinha que me manter dançando. Mas não podia mais jogar minha capoeira querida, ou estrebuchar nas aulas de dança contemporânea. Além disso, precisava de um dinheiro extra, porque a família ia aumentar. Por ironia do destino, passei a trabalhar como secretária de uma academia de dança do ventre. Detalhe: eu tinha o maior preconceito contra o que eu chamava de "aquela dancinha".

Mas aquela dancinha ardilosa foi tomando conta de meus sentidos. Véus coloridos atiçavam minhas vistas, o aroma dos incensos fumegava em minhas narinas, a música deliciosa vibrava em meus tímpanos, os tapetes persas faziam massagens em meus pés. Até mesmo meu paladar mudou, passei a apreciar os temperos árabes e logo me apaixonei por tudo. Via as aulas acontecendo e minha barriga crescendo, precisava dançar e num impulso passei a frequentar uma das turmas de iniciantes. Não preciso dizer que a maternidade transformou a minha vida. Eu era uma mamãe dançante e muito mais feliz por ter sido acolhida por uma prática suave e ao mesmo tempo forte.

Naqueles tempos, muitas das minhas colegas faziam abortos porque bailarinas não deveriam ser mães. Eram coisas que não combinavam. Como no antigo jogo da memória do SBT, poderíamos afirmar: dança e maternidade não formam par! Acompanhei o sofrimento de muitas delas, as crises existenciais, principalmente o desespero das que optavam por levar a gravidez adiante. Era como uma sentença de fim de carreira. E eu, que aos 19 anos havia encontrado o homem da minha vida, estava casada de papel passado, aliança e bênção católica, tomei uma decisão: transformar meu corpo em um símbolo da campanha a favor da gravidez dançante. Entusiasta como de costume, eu panfletava: vou provar para esse povo que uma mulher pode ser mãe e ter uma carreira de dança bem sucedida.

Não vou dizer que foi fácil. E nem sei se minha campanha deu certo. Descobri que não existe o homem da vida de ninguém, muito embora eu tenha o melhor ex-marido do mundo (sério!). Tenho uma filha de 13 anos que é uma das razões de eu continuar viva até hoje. Tanto que agora, no dia das mães, escolhi fazer uma homenagem a ela e a tudo o que ela me trouxe de maravilhoso e ainda me traz! Amo profundamente a Lara. Ela me faz forte, me apóia e até dança comigo. É um ser humano de qualidades inestimáveis! Minha filha, minha amiga, minha irmã e algumas vezes meu pai. Cuida de mim, como se fosse um pai. É que eu sou uma mãe um pouco diferente da maioria...

Concluam vocês se eu atingi minha meta. Continuei dançando, não saí da área em que escolhi atuar. Passei momentos sem dinheiro, precisando do apoio de outras pessoas: mãe, avó, ex-marido, namorado, amigos. Também consegui dinheiro com algumas coreografias premiadas, shows esparsos, aulas, oficinas, programas sociais, patrocínios. Fiz meu mestrado em arte, tendo a dança do ventre como tema, com direito a pesquisa de campo no Egito. Estou feliz. Ser mãe nunca me impediu de dançar e investir no caminho profissional escolhido. É certo que em alguns momentos precisei desviar as rotas. Mas sempre voltei para a trilha original, onde continuo.

Para as mães que dançam, um feliz dia das mães! Ainda que eu tenha minhas ressalvas em relação a essas datas comerciais instituídas. E que fique bem claro que eu não tenho nada contra o aborto. Minha campanha era para ampliar opções.

Que as mulheres possam decidir sobre seus corpos e seus destinos sempre! Que possam ser mães se e quando quiserem. Que tenham o direito de não ter filhos se assim o desejarem. E que ninguém as importune perguntando ostensivamente quando serão mães. Essa idéia de que só quem é mãe atinge a realização pessoal está deixando muitas mulheres desequilibradas, frustradas, deprimidas, desesperadas. Graças aos deuses a realidade está aí para atestar que isso é uma grande mentira. A realização pessoal depende de uma série de coisas, todas particulares, individuais, pessoais e intransferíveis. Sejamos felizes!

Mabruk! Mabruk! Habibas... Mabruk!