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2 de abril de 2010

Novas aulas com Gamila

Laboratório criativo
Criação Artística em Dança do Ventre

O AYUNY oferece um curso inédito para o desenvolvimento da sua dança, com foco na construção da autonomia e utilização ampla de repertório coreográfico pré-adquirido. As aulas se iniciam com aquecimentos utilizando técnicas variadas, fundamentos do Yoga, Pilates, Automassagem, Ballet Clássico e Alongamento.




A parte de desenvolvimento técnico em dança do ventre é mais curta que nas aulas tradicionais, todavia são trabalhados os movimentos básicos e híbridos. Ademais, são estudadas as formas de mover e partes do corpo envolvidas em cada movimento específico.
Os laboratórios criativos são de maior duração e trabalham o contato com a personagem cênica a se desenvolver no percurso para auxiliar as criações artísticas em dança do ventre e posteriores performances públicas. É considerada a parte sensorial de cada indivíduo - a visão, olfato, paladar, tato e audição. Esses sentidos são vetores para propiciar estados de consciência que facilitem a expressão individual.






Finalizando as aulas, temos estudos de composição coreográfica e improvisações dirigidas para estimular a criatividade e ampliar o repertório gestual.




Aquelas que se interessarem terão a oportunidade de integrar o Aiua! Tribo de Dança, companhia criada em 1997 e que agora retornará ao cenário cultural de Brasília vinculada ao Ayuny. Os ensaios do Aiua! deverão ocorrer imediatamente após as aulas regulares, com duração
de 15 a 30 minutos.



AYUNY

SCLN 403 Bloco C Loja 65 - Asa Norte - Brasília, DF

(61) 8508 7385

Funcionamento da secretaria: 17:30 às 21:00.

Aos sábados, das 09:00 às 12:30

www.ayuny.com.br


22 de junho de 2009

Dançar é...


Ontem vi as chamadas para o detestável "A Dança Pega" e deu uma coceira nos dedos para postar aqui mais críticas em relação ao tal programa. Insatisfeitos em esculhambar somente a prática, agora resolveram atacar a parte conceitual da arte de dançar. Colocam frases do tipo "dançar é ser livre", "dançar é sensual", "dançar é o máximo!" e outras maravilhas do marketing contemporâneo. Já não bastava ser a exibição de um programa de 2006? Pensam o quê? Que porque somos brasileiros podemos consumir seus enlatados vencidos em canais fechados de televisão? Pagamos para ver aquelas performances de péssimo gosto em uma competição? Nunca fui a favor das competições de dança. Porque quem perde sempre é a dança. Sem contar a autoestima dos dançarinos que escorre pelo ralo em situações como esta. Não sei se vocês viram, mas houve um programa onde um jurado falou para um dos concorrentes que ele dançava tão mal que deveria ter vergonha e nunca mais se apresentar em público. Uma pessoa que emite uma opinião dessas deveria ser banida dos meios de comunicação. Mesmo o mais desengonçado dos seres humanos tem o direito de dançar e também de se apresentar em público. Mas o que importa nem é isso. Importa muito, para mim, o fato de mais uma vez a dança ser utilizada como veículo para destruir a autoestima das pessoas, instrumento de tortura física e psicológica (física sim, porque muitos saem lesionados dessas malditas competições) e arma para julgar, rotular, qualificar, valorar pessoas e seus corpos, ahhhhh... Que @#%$¨¨$%$!!!!!!!...

Bem, para descontrair, proponho que vocês, em seus comentários completem a frase:
Dançar é...

14 de agosto de 2007

A Ambivalência Corporal como Facilitadora das Diversas Formas de Exploração do Ser Humano

Nossa sociedade tem demonstrado grande ambigüidade em relação ao tema corpo e corporeidade. Percebo a existência de uma nítida separação entre corpo e mente, onde a mente é supervalorizada, bem como seus atributos racionais e lógicos. E a partir disso, poderíamos supor que o corpo tem permanecido em segundo plano, praticamente desprezado. Mas, ao mesmo tempo testemunhamos atualmente a grande preocupação com a estética corporal e os avanços da ciência no que diz respeito à longevidade e à manutenção da beleza. Todavia, essa preocupação desconsidera alguns aspectos da corporeidade pois o foco está restrito às formas do corpo em detrimento de conteúdos como a sensibilidade e a consciência corporal, os sentidos e os movimentos, entre outros.

Essa ambivalência corporal contemporânea auxilia os processos de exploração do corpo, porque a partir do momento em que a mente é privilegiada e o corpo é desconsiderado como agente da produção de conhecimento, esse corpo torna-se mero objeto, composto apenas de sua materialidade. Elizabeth Grosz no artigo “Corpos Reconfigurados” afirma que as discussões filosóficas a respeito do corpo até o final do século XX tentaram “minimizar ou ignorar completamente seu papel formativo na formação de valores” (GROSZ, 2000: p.47).

Entrando em contato com os programas de Combate e Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e ao Tráfico de Pessoas, observei a lacuna existente no que dizia respeito às considerações sobre o corpo e a corporeidade. Conversei sobre essa questão com algumas pessoas envolvidas nesses programas e encontrei no projeto TIP (Tráfico Internacional de Pessoas) da OIT (Organização Internacional do Trabalho) o apoio para iniciar um trabalho que visasse desenvolver reflexões e atividades de corpo.

As primeiras atividades foram realizadas durante o Seminário do PAIR (Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-juvenil no Território Brasileiro) do Governo Federal em parceria com Organismos Internacionais e a Sociedade Civil, ocorrido de 23 a 25 de setembro de 2006 na cidade de Fortaleza – CE. Foram oficinas de expressão corporal e sensibilização para o tema do seminário, direcionadas aos participantes inscritos. Os objetivos eram minimizar o stress corporal, visando otimizar as outras atividades durante o evento, por meio de alongamentos e auto-massagem; despertar a consciência corporal; promover reflexões sobre a transformação do corpo humano em mercadoria que pode ser explorada, traficada e violada de várias maneiras. Esses temas foram trabalhados a partir de vivências onde os participantes eram levados a experimentar sensações de limitação da mobilidade corporal com conseqüente perda de autonomia sobre seus gestos. O primeiro resultado se manifestou imediatamente após as atividades, quando os participantes conseguiram traçar paralelos entre as práticas corporais e situações vivenciadas no dia-a-dia inclusive no que dizia respeito a seus trabalhos no combate à violência sexual infanto-juvenil. Além disso, no decorrer dos 3 dias de seminário, os integrantes passaram a perceber melhor a postura de seus corpos enquanto estavam sentados durante as aulas e debates.

Ao avaliar positivamente essas atividades, comecei a pensar em aproveitar os espaços onde o corpo estivesse em foco para criar mecanismos mais eficientes de sensibilização. Considerando o tópico que visa fortalecer o protagonismo juvenil presente no Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil e percebendo que a participação dos jovens ainda era incipiente, sugeri a realização de cursos de formação e capacitação de jovens para que eles pudessem passar a ministrar as oficinas de corpo durante os eventos relacionados ao tema.

A iniciativa corajosa e pioneira de desenvolver esse projeto foi prontamente acolhida pelo Centro Camará de Pesquisa e Apoio à Infância e Adolescência do município de São Vicente – SP, que acumula uma experiência de quase oito anos no desenvolvimento de ações visando o enfrentamento da violência sexual, ocupando um lugar de referência no município e na região. Encaminhando a proposta para o projeto TIP da OIT, essa instituição encontrou a parceria necessária para realizar a capacitação.

De 05 a 09 de março de 2007 foi concretizada a primeira formação que teve duas linhas principais, pois além do objetivo de formar facilitadoras para atividades de expressão corporal a OnG estava naquele momento necessitando fortalecer sua equipe para desenvolver uma atividade considerada de extrema importância pelas integrantes da instituição: a prática da dança do ventre. Por isso, o método de formação foi denominado “Método Aiua! de Formação em Dança (do Ventre)”. Os parênteses significam que apesar de ser uma especialização em dança do ventre o foco não se restringe a ela, passando também por outras abordagens da dança e pela expressão corporal.

A dança do ventre tem sido uma das formas mais eficientes de resignificação das partes do corpo que sofreram com a violência física, em especial a sexual. Isso ocorre porque seus movimentos trabalham diretamente com as partes do corpo mais envolvidas nos atos que desconstroem a corporeidade de quem passa pelas mais diversas experiências negativas ligadas à sexualidade. Os movimentos suaves e ondulatórios dessa dança aparecem como elementos de cura e transformação emocional, conseguindo alcançar conteúdos que nem sempre o discurso verbal e as terapias convencionais são capazes de atingir. Segundo os relatos de quem passa por experiências negativas em relação à sexualidade, existe um momento em que sentem “sair do corpo”. Com a dança do ventre muitas vítimas recuperam a autonomia corporal, como uma espécie de retorno ao próprio corpo; também resgatam a auto-estima e adquirem uma visão de sexualidade saudável, vital, e sagrada no sentido de ser o veículo da criação da própria vida.

Contudo, as entidades patrocinadoras de instituições que enfrentam a violência e a exploração sexual nem sempre vêem com bons olhos a prática da dança do ventre. Em alguns casos ameaçam suspender o apoio financeiro caso essa prática conste dos quadros de atividade dessas instituições. No Camará muitas das jovens atendidas se sentiram extremamente beneficiadas com as aulas de dança. Mas tiveram dificuldades em manter as aulas por falta de apoio financeiro. Chegaram a produzir acessórios para a dança do ventre com o objetivo de vendê-los e arrecadar o dinheiro necessário para pagar a professora. Após dois anos de luta para manter a atividade, a concretização do curso de formação habilitou as próprias jovens a ministrar as aulas, podendo multiplicar esses conhecimentos e atender a quem se interessar em fazer parte do projeto.

Em 28 de março de 2007, durante o Fórum Nacional de Inserção Feminina nas Instituições Policiais promovido pelo Departamento de Polícia Rodoviária Federal, em parceria com a OIT, foi inserida na programação uma vivência ministrada por Valéria Alves, monitora da do Camará. Esse foi o primeiro resultado prático do curso de formação desenvolvido em março. E teve desdobramentos excelentes, apesar da curta duração. Foi uma aula de dança com foco em movimentos suaves e ondulatórios, exercícios de consciência corporal e relaxamento. Estavam presentes cerca de 150 policiais representando todos os Estados da Federação Brasileira.

Para as policiais foi uma atividade importante no sentido de refazer o contato com a corporeidade e sensibilizá-las em relação à importância de atividades como a dança nos contextos onde se busca uma maior consciência de si e de outros. Além disso, foi dado grande destaque à atuação da OnG, porque a monitora falou com detalhes como se dá o funcionamento dessa instituição. Sua própria desenvoltura e excelente condução da atividade ilustraram que o trabalho do Camará realmente prepara seus participantes para se inserir nas várias esferas sociais, trabalhando, atuando e se posicionando. Ao final da atividade, Valéria comentou que tinha uma visão distanciada e preconceituosa em relação às instituições policiais e destacou que foi importante para ela perceber que a polícia está composta também por mulheres sensíveis, vaidosas e muito bem informadas acerca das questões sociais.

Assim sendo, podemos destacar como conseqüências dessa primeira atividade os seguintes desdobramentos: a sensibilização das policias para seus corpos; o aumento do estímulo dessas policiais para desempenhar seus papéis no combate às diversas formas de violência contra crianças e jovens, porque foram diretamente beneficiadas com uma atividade criada a partir de um resultado que deu certo proveniente desse combate; e a possibilidade de conferir maior credibilidade à própria instituição policial, que passou a ser vista por Valéria com um olhar mais suave e livre de preconceitos, o que certamente será multiplicado por ela durante seu trabalho na OnG e no cotidiano.


Referências Bibliográficas:

GROSZ, Elizabeth. “Corpos reconfigurados”. In: PISCITELLI, Adriana, GREGORI, Filomena (org.). Cadernos Pagu: corporificando gênero, Campinas, SP, n.14, 2000. (45-86).

Brasil. Ministério da Justiça. SEDH/DCA. Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil. Brasília: MJ/SEDH/DCA, 2001.


7 de fevereiro de 2007

O Ventre dos Homens


Homem tem ventre?

Tive uma professora de dança do ventre que adorava ser sádica com os homens e sempre dizia que eles eram desprovidos de ventre, porque não podiam gerar vida, não tinham útero, ovários... O Dicionário Júnior da Língua Portuguesa de Geraldo Mattos (2001) apresenta três definições do que seja ventre

sm. 1. Parte do corpo humano e de outros animais vertebrados onde estão localizados o estômago, os intestinos e outros órgãos: abdome, barriga - O médico apalpou o ventre do menino. 2. Região que fica por baixo da pele dessa parte - O menino sente dores no ventre. 3. Parte do corpo feminino onde a criança se desenvolve antes de nascer: útero. (pg.722).

Tendo em conta as duas primeiras definições e os exemplos dados com o ventre do menino, presumo que, apesar da terceira definição, homens têm ventre.
E no Egito não só têm o ventre como dançam. Dança do Ventre.

A dança do ventre masculina é uma controvertida temática, porque no Brasil muitos de nós já assistimos a performances masculinas, peculiares, por vezes bizarras. Homens travestidos ou que se fazem femininos. Alguns que chegam disfarçados, andróginos e que em certos momentos de suas danças revelam seu segredo - o fato de serem homens. Com um certo prazer irônico, tipo "enganei vocês, vai dizer que o senhor não sentiu tesão por mim, seu pervertido!". Detesto essas danças. São de mau gosto! E não é sobre elas que quero falar. Muito menos dar força a essas práticas, legitimá-las. Dancem como queiram. Só não contem com o meu apoio e apreciação.

Pois bem, voltando ao Egito, quando lá estive em novembro de 2005 assisti a muitas dessas danças masculinas, com movimentos idênticos aos que eu aprendi em sala de aula, ondulações, tremidos, oitos de quadril, camelo... Eles dançavam, mas não eram femininos. Eram viris. Estavam por todo canto, nas esquinas, nos mercados, nas ruas, nas casas e na televisão. Conquistando as mulheres com suas danças do ventre.

Curiosa sobre essas manifestações até então por mim desconhecidas, foi com grande satisfação e surpresa que dei de cara com o livro Coreographics Politics de Anthony Shay (2002). Esse livro é uma preciosidade, por abordar as políticas coreográficas responsáveis por imagens equivocadas das manifestações artísticas em diversos países. Assunto vasto, para outros vários artigos. Mas quando fala sobre a dança egípcia masculina, Shay trouxe para a minha vida revelações surpreendentes.

Quando define o que é a dança do ventre, Anthony Shay afirma que é uma dança solo praticada por homens e mulheres. Mas a performance masculina teria, segundo ele, sido suprimida pela mentalidade colonialista dos britânicos e franceses que dominaram o Egito e desenharam um modelo do que fosse adequado ou inadequado para o cidadão egípcio que pretendesse se "civilizar". Em 1881 e 1882 se instalaram no Egito escolas com o sistema britânico de ensino, onde foram amplamente difundidos textos que continham idéias sobre o atraso, a negligência moral e a indolência dos egípcios. Também enfatizavam a necessidade de se adotar a moral inglesa. Tudo isso foi prontamente absorvido pela população.

Assim, o conhecido coreógrafo Mahmoud Reda desenvolveu estratégias coreográficas que lhe renderam suporte financeiro e apoio governamental, tendo como primeira grande mudança artística em sua companhia a proibição da dança do ventre masculina. Essa proibição, segundo Shay, seguiu as recomendações governamentais sobre quais seriam "os movimentos apropriados ou não para o corpo masculino (inglês, e agora egípcio)" (p. 148).

E então, numa atitude parecida com a da minha professora de dança do ventre, o tal coreógrafo pareceu dizer que homem não tem ventre. Ou pior ainda, Mahmoud Reda amputou o ventre dos homens egípcios, roubou-lhes o direito de dançar daquela forma. Mas graças aos deuses, essas mudanças oficiais não conseguem apagar a força vital da corporalidade humana. E, como ocorre em grandes manifestações de resistência, eles continuam a vibrar, ondular, seduzir e encantar com seus ventres masculinos.

16 de outubro de 2006

Dos que Desprezam o Corpo




Aos que desprezam o corpo quero dizer a minha opinião.

O que devem fazer não é mudar de preceito, mas simplesmente despedirem-se do seu próprio corpo, e por conseguinte, ficarem mudos.

“Eu sou corpo e alma” — assim fala a criança. — E porque sei não há de falar como as crianças?

Mas o que está desperto e atento diz: — “Tudo é corpo, e nada mais; a alma é apenas nome de qualquer coisa do corpo”.

O corpo é uma razão em ponto grande, uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor.


Instrumento do teu corpo é também a tua razão pequena, a que chamas espírito: um instrumentozinho e um pequeno brinquedo da tua razão grande.

Tu dizes “Eu” e orgulhas-te dessa palavra. Porém, maior — coisa que tu não queres crer — é o teu corpo e a tua razão grande. Ele não diz Eu, mas: procede como Eu.

O que os sentidos apreciam, o que o espírito conhece, nunca em si tem seu fim; mas os sentidos e o espirito quereriam convencer-te de que são fim de tudo; tão soberbos são.

Os sentidos e o espírito são instrumentos e joguetes; por detrás deles se encontra o nosso próprio ser. Ele esquadrinha com os olhos dos sentidos e escuta com os olhos do espirito.

Sempre escuta e esquadrinha o próprio ser: combina, submete, conquista e destrói.

Reina, e é também soberano do Eu.

Por detrás dos teus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um senhor mais poderoso, um guia desconhecido, chama-se “eu sou”. Habita no teu corpo; é o teu corpo.

Há mais razão no teu corpo do que na tua melhor sabedoria. E quem sabe para que necessitará o teu corpo precisamente da tua melhor sabedoria?

O próprio ser se ri do teu Eu e dos seus saltos arrogantes. Que significam para mim esses saltos e vôos do pensamento? — diz. — Um rodeio para o meu fim. Eu sou o guia do Eu e o inspirador de suas idéias.

O nosso próprio ser diz ao Eu: “Experimenta dores!” E sofre e medita em não sofrer mais; e para isso deve pensar.

O nosso próprio ser diz ao Eu: “Experimenta alegrias!” regozija-se então e pensa em continuar a regozijar-se freqüentemente; e para isso deve pensar.

Quero dizer uma coisa aos que desprezam o corpo: desprezam aquilo a que devem a sua estima. Quem criou a estima e o menosprezo e o valor e a vontade?

O próprio ser criador criou a sua estima e o seu menosprezo, criou a sua alegria e a sua dor. O corpo criador criou a si mesmo o espírito como emanação da sua vontade.

Desprezadores do corpo: até na vossa loucura e no vosso desdém sereis o vosso próprio ser. Eu vos digo: o vosso próprio ser quer morrer e se afasta da vida.

Não pode fazer o que mais desejaria: criar superando-se a si mesmo. É isto o que ele mais deseja; é esta a sua paixão toda.

É, porém, tarde demais para isso: de maneira que até o vosso próprio ser quer desaparecer, desprezadores do corpo.

O vosso próprio ser quer desaparecer: por isso desprezais o corpo! Porque não podeis criar já, superando-vos a vós mesmos.

Por isso vos revoltais contra a vida e a terra. No olhar oblíquo do vosso menosprezo transparece uma inveja inconsciente.

Eu não sigo o vosso caminho, desprezadores do corpo! Vós, para mim não sois pontes que se encaminhem para o Super-homem!”

Assim falava Zaratustra.

Trecho retirado de:
Nietzsche, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Trad. Pietro Nasseti. São Paulo, Martin Claret: 1999. (255 pp).