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10 de maio de 2009

As mães também dançam

Estranho começar um post com um título do qual discordo. Mas vou manter assim. Quando colocamos a palavra 'também' numa frase, de certo modo realizamos uma distinção. É como se as mães fossem diferentes de outras mulheres. Mesmo assim, deixarei que o título permaneça, a título de provocação.

Foi com a minha gravidez que tomei contato com a dança do ventre. Afinal de contas, eu estava na graduação em Dança na universidade e tinha que me manter dançando. Mas não podia mais jogar minha capoeira querida, ou estrebuchar nas aulas de dança contemporânea. Além disso, precisava de um dinheiro extra, porque a família ia aumentar. Por ironia do destino, passei a trabalhar como secretária de uma academia de dança do ventre. Detalhe: eu tinha o maior preconceito contra o que eu chamava de "aquela dancinha".

Mas aquela dancinha ardilosa foi tomando conta de meus sentidos. Véus coloridos atiçavam minhas vistas, o aroma dos incensos fumegava em minhas narinas, a música deliciosa vibrava em meus tímpanos, os tapetes persas faziam massagens em meus pés. Até mesmo meu paladar mudou, passei a apreciar os temperos árabes e logo me apaixonei por tudo. Via as aulas acontecendo e minha barriga crescendo, precisava dançar e num impulso passei a frequentar uma das turmas de iniciantes. Não preciso dizer que a maternidade transformou a minha vida. Eu era uma mamãe dançante e muito mais feliz por ter sido acolhida por uma prática suave e ao mesmo tempo forte.

Naqueles tempos, muitas das minhas colegas faziam abortos porque bailarinas não deveriam ser mães. Eram coisas que não combinavam. Como no antigo jogo da memória do SBT, poderíamos afirmar: dança e maternidade não formam par! Acompanhei o sofrimento de muitas delas, as crises existenciais, principalmente o desespero das que optavam por levar a gravidez adiante. Era como uma sentença de fim de carreira. E eu, que aos 19 anos havia encontrado o homem da minha vida, estava casada de papel passado, aliança e bênção católica, tomei uma decisão: transformar meu corpo em um símbolo da campanha a favor da gravidez dançante. Entusiasta como de costume, eu panfletava: vou provar para esse povo que uma mulher pode ser mãe e ter uma carreira de dança bem sucedida.

Não vou dizer que foi fácil. E nem sei se minha campanha deu certo. Descobri que não existe o homem da vida de ninguém, muito embora eu tenha o melhor ex-marido do mundo (sério!). Tenho uma filha de 13 anos que é uma das razões de eu continuar viva até hoje. Tanto que agora, no dia das mães, escolhi fazer uma homenagem a ela e a tudo o que ela me trouxe de maravilhoso e ainda me traz! Amo profundamente a Lara. Ela me faz forte, me apóia e até dança comigo. É um ser humano de qualidades inestimáveis! Minha filha, minha amiga, minha irmã e algumas vezes meu pai. Cuida de mim, como se fosse um pai. É que eu sou uma mãe um pouco diferente da maioria...

Concluam vocês se eu atingi minha meta. Continuei dançando, não saí da área em que escolhi atuar. Passei momentos sem dinheiro, precisando do apoio de outras pessoas: mãe, avó, ex-marido, namorado, amigos. Também consegui dinheiro com algumas coreografias premiadas, shows esparsos, aulas, oficinas, programas sociais, patrocínios. Fiz meu mestrado em arte, tendo a dança do ventre como tema, com direito a pesquisa de campo no Egito. Estou feliz. Ser mãe nunca me impediu de dançar e investir no caminho profissional escolhido. É certo que em alguns momentos precisei desviar as rotas. Mas sempre voltei para a trilha original, onde continuo.

Para as mães que dançam, um feliz dia das mães! Ainda que eu tenha minhas ressalvas em relação a essas datas comerciais instituídas. E que fique bem claro que eu não tenho nada contra o aborto. Minha campanha era para ampliar opções.

Que as mulheres possam decidir sobre seus corpos e seus destinos sempre! Que possam ser mães se e quando quiserem. Que tenham o direito de não ter filhos se assim o desejarem. E que ninguém as importune perguntando ostensivamente quando serão mães. Essa idéia de que só quem é mãe atinge a realização pessoal está deixando muitas mulheres desequilibradas, frustradas, deprimidas, desesperadas. Graças aos deuses a realidade está aí para atestar que isso é uma grande mentira. A realização pessoal depende de uma série de coisas, todas particulares, individuais, pessoais e intransferíveis. Sejamos felizes!

Mabruk! Mabruk! Habibas... Mabruk!

12 de março de 2009

E a vovó foi pro asilo...



A dança do ventre é avó da dança contemporânea. Mas a dança contemporânea, com vergonha desse parentesco, tratou de colocar a velha num asilo. Afinal, a coroa à solta por aí dá trabalho demais, subindo em cima das mesas, freqüentando boates e cabarés, locais impróprios para uma senhora de idade tão avançada...

Ironias a parte, duas das três precursoras da chamada dança moderna se inspiraram na febre orientalista que tomou conta do cenário artístico e cultural da segunda metade do século XIX, como aponta Toni Bentley no livro Sister of Salome. Loie Fuller e Ruth St. Denis buscaram nas danças orientais os temas que proporcionaram alternativas aos padrões vigentes na época. Os planos de luz que utilizavam, figurinos, véus e aromas são provas da participação da dança do ventre nas idéias de suas composições artísticas.

Fuller se destacou por trabalhar com véus, construindo estruturas de grandes proporções que cobriam praticamente todo o seu corpo. Denis foi arrebatada pela cultura oriental a ponto de alguns autores escreverem que o orientalismo era a sua religião (BENTLEY, 2002: 44). Numa época onde as mulheres só trabalhavam com dança se estivessem vinculadas a alguma grande companhia, Ruth St. Denis optou pela carreira como criadora e bailarina independente após entrar em contato com a imagem de uma deidade egípcia em um pôster. Essa imagem a "hipnotizou", fazendo com que passasse a pesquisar um estilo de dança interpretativo. Seus temas eram usualmente "exóticos" e sua dança tinha como principal meta mostrar ao público ocidental que as danças do oriente eram reais e não fantasias de contos de fadas (BUONAVENTURA, 1998: 124-6). A terceira precursora era Isadora Duncan, que se libertou do espartilho inspirada pela cultura helênica. Mas a dança do ventre, embora seja uma prática popular também na Grécia, não exerceu maiores interferências no trabalho de Duncan.



Ruth St. Denis

Os véus de Loie Fuller são muito similares aos conhecidos véus wings utilizados atualmente pelas dançarinas do ventre. Não há como saber qual dos véus veio primeiro, se Fuller se inspirou em estruturas que já existiam nas danças orientais ou se a dança do ventre se aproveitou de uma inovação da artista para criar um novo estilo. O que se sabe é que quando em 1892 viajou dos Estados Unidos - sua terra natal - para a Europa com o objetivo de dançar em Paris, Fuller já possuía uma longa carreira como performer e era conhecida por utilizar véus de seda e efeitos de luz (BENTLEY, 2002: 44). Considerando-se que a dança do ventre só passou a ser mais amplamente divulgada em solo americano na última década do século XIX, podemos imaginar que há uma maior probabilidade de que Fuller tenha desenvolvido essa criação, ampliando os véus com extensores de madeira nas pontas. Talvez ela tenha se inspirado nos véus das danças orientais e contribuído para torná-los mais compridos.



Loie Fuller

Em meados do século XIX foram organizadas exposições mundiais no ocidente que divulgaram, entre outras coisas, culturas de vários países promovendo um intercâmbio artístico onde bailarinas do oriente migraram para Europa e América. Mas as atrações mais genuínas algumas vezes não agradavam ao público, como na descrição do que aconteceu com o Palácio Persa de Eros construído na Grande Exposição Mundial de Chicago em 1893. Segundo as pesquisas de Linda Carlton, publicadas em seu livro Looking for Little Egypt, uma autêntica companhia persa foi trazida para demonstrar habilidades atléticas, o tear de tapetes e lapidação de pedras preciosas naquele palácio construído numa área especial para o entretenimento daquela exposição. Mas o público não tolerou o caráter instrutivo dessas atividades e o desapontamento transformou a atração em um grande fiasco, fazendo com que seus gerentes mudassem radicalmente a programação. Dançarinas de Paris com suas danças e roupas pseudo-orientais, rapidamente trouxeram a audiência esperada, ainda que o público fosse exclusivamente masculino (CARLTON, 2002: 20-3).

A preferência dos consumidores pela farsa fazia com que os artistas modificassem suas obras com o objetivo de permanecer em cartaz e garantir seus cachês. Com as danças se deu um processo de modificação e incorporação de elementos ocidentais tais como uso do espaço cênico e do corpo, instrumentos musicais e figurinos. Ao que tudo indica antes do século XIX não existia o que hoje conhecemos por dança do ventre. O que havia eram diversas manifestações artísticas nos inúmeros países árabes, como ainda hoje podem ser vistas. Mas quando passaram a se apresentar no ocidente, essas manifestações foram se homogeneizando, dando origem ao que hoje conhecemos como dança do ventre. Essa dança, então, teria características de várias danças de diferentes países do oriente somadas aos movimentos rebuscados das danças ocidentais. O resultado foi o desenvolvimento de uma arte híbrida que passou também a ser praticada nos países árabes e orientais como um todo, num processo de retroalimentação.

E todo esse processo fertilizou o solo cultural e artístico do início do século XX para que germinassem os primeiros passos da dança moderna, libertando os pés das sapatilhas e os corpos dos movimentos codificados do balé clássico. A partir disso, outros processos criativos pipocaram pelo mundo afora, culminando com o que hoje conhecemos por dança contemporânea. Porém, não se fala sobre essa relação entre dança do vente e as tendências artísticas mais valorizadas na área de dança. É um assunto tabu. E a dança do ventre permanece um tema praticamente invisível, principalmente nas pesquisas universitárias.

Um conceito útil para se compreender como a dança do ventre pode exercer fascínio e ao mesmo tempo permanecer subvalorizada no cenário artístico ocidental é discutido por Joshua Taylor, em seu artigo "Two Visual Excursions". Taylor fala do excitamento diante do exótico e desenvolve o conceito de "artefato etnológico"(i) para teorizar sobre o contato ocidental com obras de arte provenientes de outros contextos culturais. Segundo esse autor, independentemente de possuirmos um conhecimento prévio sobre a cultura de onde a obra se originou, podemos experimentar uma espécie de hipnose diante de suas formas.

No caso da dança do ventre essa hipnose é reconhecida e descrita por Wendy Bounaventura em dois de seus livros com a mesma citação do escritor francês Charles Gobineau, que registrou suas impressões sobre o contato com aquela dança da seguinte forma:

Horas se passam e é difícil mandar alguém embora. É dessa forma que os movimentos das garotas dançarinas afetam os sentidos. Não há variedade ou vivacidade e raramente existe uma variação para algum movimento súbito, mas os giros rítmicos exercem um torpor delicioso sobre a alma, como uma intoxicação quase hipnótica (GOBINEAU apud BUONAVENTURA, 1998: 16; 2004: 263)(ii)

Quando Taylor apresenta a noção de "artefato etnológico" ele o faz em oposição ao termo "arte". Refere-se ao modo como são denominadas as obras provenientes de outras culturas quando catalogadas no ocidente e discute a dificuldade encontrada pelos críticos de arte em defini-las, quando essas obras passam a fazer parte do acervo dos museus como objetos artísticos. Isso ocorre porque muitas vezes esses objetos são coletados com finalidades arqueológicas ou antropológicas e os textos científicos são as fontes mais utilizadas como referência para falar sobre esses "artefatos" (TAYLOR, 1980: 26-36).

As danças orientais apresentadas na Exposição Mundial Chicago, ainda que se questione sua autenticidade, arrecadaram imensas quantias em dinheiro por causa do grande choque causado às mulheres da Era Vitoriana, que viviam apertadas em seus espartilhos e aprendiam os passos de suas danças refinadas e "civilizadas" com professores especializados. O sensacionalismo despertado a partir dos movimentos improvisados e "selvagens" dos quadris das dançarinas da feira atraíram milhares de curiosos, que muitas vezes chegavam a Chicago com o único objetivo de assistir a essas apresentações (CARLTON, 2002: 46-7).

O ocidente está condicionado a um modo de ver a arte. O artigo de Joshua Taylor sugere que conceitos e idéias ocidentais precisam ser revisados. Quando se fala em dança do ventre é comum que os profissionais contemporâneos da área de dança sejam remetidos a essa noção de "artefato etnológico". Como se não fosse uma dança artística e sim algo funcional, voltado para o entretenimento, que não possui atributos válidos para ocupar um palco, para ser pesquisada como tema central de um trabalho acadêmico ou servir de inspiração para trabalhos contemporâneos de arte. A falta de isenção na avaliação de objetos de arte de outras culturas coloca em risco o sentido inerente à criação desses objetos. A carga cultural da qual os críticos de arte e outros profissionais do ocidente estão imbuídos contamina as descrições e os juízos a respeito das obras, porque raramente essa carga é reconhecida por esses profissionais.

É tanto que, mesmo exercendo papeis históricos importantes, as danças orientais não estão catalogadas nos livros mais conhecidos de História da Dança. Desacreditada a dança do ventre passou a perambular às margens do cenário artístico contemporâneo, como se fosse um membro indesejável de uma família que não quisesse tê-la por perto. E assim, a vovó mais uma vez vai para o asilo, pra onde são enviados aqueles que se deseja evitar. Mas o fato de a terem ignorado não fez com que fosse totalmente esquecida, tanto é que agora surgem pesquisadores dispostos a rasgar o véu que a deixou invisível em alguns cenários por um certo período.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENTLEY, Toni. Sisters of Salome. New Heaven: Yale University Press, 2002.

BUONAVENTURA, Wendy. Serpent of the Nile: Woman and Dance in the Arab World. New York: Interlink Books, 1998.

CARLTON, Donna. Looking for Little Egypt. Bloomington, USA: IDD Books, 2002.

MARTIN, Randy. "Dance Ethnography and the Limits of Representation" in DESMOND, Jane C (Ed.). Meaning in Motion: New Cultural Studies of Dance (Post-contemporary Interventions). Durham, NC: Duke University Press, 1997. (320-43).

TAYLOR, Joshua C. "Two Visual Excursions" in MITCHEL, W.J.Thomas (ed.). The Language of Images. Chicago and London: The University of Chicago Press, 1980.(25-36).

Artigo extraído da internet:
MENDES, Ana Carolina. "A dança que vemos, que nos olha" [online]. Artigo apresentado no 13º encontro da ANPAP, Disponível na Internet:

Acesso em 22/12/2004.


i"Ethnological Artifacts" (Tradução Livre da Autora do Trabalho).
ii "Hours pass, and it is difficult to tear oneself away. This is how the motions of the dancing girls affect the senses. There is no variety or vivacity, and seldom is there a variation through any sudden movement, but the rhythmic wheeling exerts a delightful torpor upon the soul, like an almost hypnotic intoxication."
(Tradução Livre da Autora do Trabalho).

24 de outubro de 2006

Do Corpo que Dança o Ventre


Uma dança exótica, sensual. Tambores hipnóticos e movimentos convulsivos dos quadris das dançarinas causam sensações difíceis de explicar. Algumas dizem que vicia. Não duvido. Aliás, talvez tenha sido a droga mais pesada exibida na novela “O Clone” em 2002. A overdose de dança do ventre não deixou margem de comparação com nenhuma outra dança já exibida em rede nacional. Antes disso, já tinha feito a cobra subir ralando o tchan.

Por trás dos bastidores, nenhum glamour. O próprio nome, dança do ventre, segundo dizem, foi um termo inventado no final do século dezenove, por um empresário judeu, com o objetivo de causar sensacionalismo na feira mundial de Chicago. Tornou-se febre nos cabarés da época e por causa disso, até hoje o estilo de show que apresenta a dançarina coberta de brilhos, tecidos finos e paetês é chamado "estilo cabaré", para desespero das puristas que praticam essa dança.

Já o estilo tribal, muito em voga desde os anos 90, resgata danças praticadas entre os beduínos, Berbers e Tuaregs. Incorpora, também, elementos de outras culturas, como o flamenco e a dança indiana. Apresenta trajes mais sóbrios, maquiagem ritualística e uma dança onde o foco está no movimento. Dançam mais para si mesmas do que para o público. Por ter sido desenvolvido a partir de uma pesquisa de um grupo dos Estados Unidos, é chamado “American Tribal Belly Dance” (dança do ventre tribal americana). Ah sim, é uma dança estadunidense, não nos enganemos!

As mulheres que praticam a dança do ventre no Brasil são, em sua grande maioria, adeptas do estilo cabaré. Apenas no ano de 2002 o estilo tribal chegou ao país. Ambos os estilos, em nosso país, passaram pelo filtro das estadunidenses. Nossa dança com véus segue o padrão estadunidense, com um tempero brasileiro, é claro, mas a primeira influência sempre vem de lá. Apesar de termos uma riqueza cultural inestimável, nossa baixa auto-estima nos impede de exercer uma autonomia de criação. Com o tribal, o mesmo processo se repete, embarcamos na pesquisa estadunidense. Uma lástima! Hoje vemos clones das dançarinas californianas espalhadas pelas várias cidades do Brasil. Será que a Glória Perez fez uma profecia quando escolheu o nome da novela? Dança do Ventre - Clone... Clone - Dança do Ventre... Ironias à parte me pergunto: qual o motivo de pegarmos carona nas tribos alheias, se temos um referencial tão vasto de danças, como as dos orixás e outras tantas indígenas e as tradicionais e populares?

Praticando a dança do ventre desde 1993, comecei a atuar profissionalmente em 1997. Resolvi desenvolver uma pesquisa profunda sobre essa dança. Minhas primeiras impressões não foram animadoras. Encontrei mulheres torturadas, infelizes, desgostosas com seus corpos e suas vidas. Algumas miseráveis, outras enlouquecendo. Levei esse estudo tão a sério que virou dissertação de mestrado. Foi um trabalho pesado porque quando comecei a pesquisar, em 2003, não havia textos acadêmicos sobre esse tema. Graças a iniciativas pioneiras, hoje podemos encontrar algumas boas pesquisas!

Escolhi praticar a dança do ventre por acreditar que ela me libertaria dos padrões impostos por danças que exigem desempenhos sobre-humanos e corpos moldados para sua prática. Também chamava a dança do ventre de “dança de bolso”, já que ela podia ser levada para inúmeros espaços, desde bares, restaurantes, barcos, teatros, casas, enfim, uma gama de possibilidades. Com o tempo, fui aprendendo que não era bem assim. Para tudo existe um preço (clichê, porém muito bem empregado aqui). Dependendo do local da apresentação o tratamento é o pior possível, a dançarina não é vista como artista, tem o status quase igual ao de uma prostituta. E, com a popularização dessa dança, também desapareceu a liberdade da forma física.

Antes da novela, era comum que eu escrevesse textos que explicassem o que era a dança do ventre. Hoje não é mais necessário explicar, já que a grande maioria da população pensa que se tornou expert em cultura árabe e, por tabela, dança do ventre. Confesso que preferia minhas antigas referências às mulheres misteriosas com roupas esvoaçantes e brilhantes, cabelos compridos, muita maquiagem, causando espanto, admiração e muita curiosidade a respeito daquilo que faziam.

Os corpos das dançarinas de hoje precisam obedecer à estética de modelos e atrizes. As barrigas, que eram até bem vistas por causa das tremidas e ondulações, agora são um incômodo que precisa ser retirado com urgência. A minha barriga, com estrias de uma linda gravidez esteve tão em foco depois da novela que ganhei de presente uma plástica de abdômen enquanto fazia um show em 2002. Fiquei pasma em pensar que aquela pessoa, que me ofereceu um presente tão caro, provavelmente não tinha prestado atenção à minha dança, porque minha barriga se sobressaiu. Não houve grosseria, muito pelo contrário, a pessoa me cobriu de gentilezas dizendo que eu dançava muito bem e merecia ter um corpo esculpido. Por algum tempo fiquei em dúvida. O desespero em atender ao padrão das mídias é um vírus que poderia a qualquer momento me contaminar. Mas fui imunizada por um texto que circula pela internet e que dizem que foi o Arnaldo Jabor que escreveu, embora nada que circule na rede tenha a autoria confirmada... Independente disso, o que me chamou atenção no tal texto foi a parte onde ele dizia que as mulheres querem ser mercadorias sedutoras, disputadas e consumidas como um bom eletrodoméstico ou uma BMW, “porque ‘objeto’ é feliz e não sofre”.

Constatei embasbacada que a minha dança da libertação feminina poderia ser a grande armadilha que me levaria a querer ser igual às mulheres das revistas, das novelas e comerciais de cerveja. Lembrei da depressão pela qual já havia passado, na época em que fazia tantos shows que perdi a noção do que acontecia em minha vida. Dependendo da apresentação eu conseguia me sentir como uma peça de carne na vitrine de algum açougue, um pianista de churrascaria, malabarista de circo, dançarina em programa de televisão, enfim, nunca chegava a hora em que eu seria uma deusa etérea em contato com o divino feminino. E nunca chegaria, se eu não mudasse o rumo das coisas.

Como professora, posso dizer que minhas alunas também estão torturadas por causa de seus corpos. Sonham em retirar dobras, lipoaspirar barrigas imaginárias. Eu sempre as incentivei a se aceitarem como são, até porque são realmente lindas. Tenho tentado ampliar os horizontes de nossos grupos de estudo, mas para isso é preciso sair um pouco do tema ‘dança do ventre’, explorar o universo feminino a partir de novas referências. Danças de Orixás, Danças Indígenas, mas principalmente aquela Dança Interna, onde cada uma de nós pode criar a partir de um repertório pessoal, têm sido o bálsamo de que precisávamos para reencontrar nossas essências. Como coreógrafa, percebo que esse caminho alternativo tem melhorado a impressão que a dança do ventre causa no público.

Venho realizando esse trabalho há um certo tempo, e nem assim consegui ficar imune aos efeitos da “globalização” da dança do ventre. Descobri, com muito entusiasmo, outras iniciativas parecidas com a minha. O sagrado é em cada uma de nós. O acesso não está automaticamente ligado ao aprendizado de uma dança, mas na tomada de consciência e no despertar. Um pequeno esforço é necessário. Estar atenta é tarefa constante.

Quanto à minha barriga... Bem, ela virou patrimônio das mulheres que comigo se identificam. Um dia, a mãe de uma das minhas alunas disse que, quando me viu dançar, ficou de alma lavada. Ela nunca imaginou que poderia deixar de lado o complexo de ter barriga e dançar. Depois do meu show, percebendo que eu estava feliz e segura, resolveu que também poderia. Ela não foi a primeira e não será a última a se sentir assim. Portanto, apesar de hoje em dia minha barriga estar muito menor do que na época da foto que ilustra o presente texto (emagreci 9 kilos depois de aprender a comer no Egito e voltar a malhar), não pretendo eliminar completamente um instrumento tão eficaz de elevação da autoconfiança feminina. Minha barriga é sagrada, ela é o meu ventre. O termo dança do ventre adquire, assim, uma conotação absolutamente positiva.


A autora e sua barriga