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29 de outubro de 2009

O Silogismo é a Lógica do Extremista!


Uma amiga que está morando na Itália me enviou essa semana um email falando sobre "casamentos pedófilos do Hamas". O texto, mal escrito por sinal, continha explícitas referências preconceituosas em relação aos muçulmanos. Como dizia que a fonte da notícia era de um blog jornalístico, pensei: "Pôxa vida, esses jornalistas precisam de uma dose de antropologia para que se manifestem de um modo mais adequado". O artigo ainda vinha ilustrado com fotos e vídeos, mostrando noivas mirins com seus maridos na faixa dos 25 a 30 anos, crianças sofrendo abusos e relatos sobre o incentivo de tais práticas.

Fala sobre a mutilação genital e apresenta dados estatísticos sobre abusos contra crianças no Egito e na Jordânia, além de um suposto discurso do Aiatolá Khomeini. O tal discurso poderia ser comparado à tentativa de recriação de um trecho do kama sutra para pedófilos. Pesquisei na internet e encontrei o mesmo texto publicado na íntegra no blog "Salvação", cuja logomarca é uma cruz, que por alguma razão me fez lembrar da Ku Klux Klan. Procurei a fonte jornalística anunciada no blog, mas não encontrei. Até porque ando meio sem tempo. No site principal não havia um link disponível e pesquisar poderia demorar, se alguém quiser fazer isso, depois me manda o link, ok?

O que importa dizer aqui é aquilo que me fez parar de estudar para atualizar meu blog querido. As falas generalizantes que colocam TODOS os muçulmanos, TODOS os Árabes em um saco com o rótulo de "fanáticos religiosos", "terroristas" e agora "pedófilos" são pérfidas e apenas contribuem para que o senso comum fique recheado de preconceitos e sentimentos ruins, tendo a certeza de se tratar de verdade absoluta pois, ora bolas, está publicado e a fonte é jornalística! Para justificar tais idéias utilizam trechos de biografias deslocadas no tempo e no espaço. Justificaram a pedofilia, por exemplo, dizendo que Maomé se casou com uma menina de 6 anos. Esqueceram de dizer que isso aconteceu há mais de um milênio em um contexto cultural, social, político, geográfico e religioso completamente diferente do atual.

Pensei com meus botões que esse artigo fez algo horrendo e consegui alcançar uma analogia que me satisfez. O que o artigo sobre o Hamas faz, se compara a dizer que a pedofilia na Igreja Católica foi incentivada pela famosa frase de Jesus "deixai que venham a mim as criancinhas". Pode ser que eu seja atacada por algum fanático religioso após essa postagem, mas quem tiver o mínimo de inteligência saberá o que quero dizer com essa analogia. Mesmo assim, dou uma ajudinha para os menos favorecidos: podemos justificar qualquer coisa com qualquer argumento. É a famosa armadilha do silogismo: Maomé se casou com uma menina de 6 anos; casar-se com uma menina de 6 anos é pedofilia; logo: Maomé era pedófilo! E mais: Maomé é o pai da religiao islâmica, Maomé era pedófilo, logo: os muçulmanos são pedófilos.

Posso até ir mais longe. O que justifica os abusos contra crianças no Brasil? Alguma seita religiosa? NÃO! Por que existem casamentos de crianças na Índia? Porque eles são muçulmanos? NÃO! Por que um senhor de 112 anos se casou com uma adolescente de 17 na Somália? Será que a moça é gerontófila? NÃO! Por que alguns (muitos) pais fazem sexo com suas filhas? Porque gostariam de ser os Faraós do Egito? NÃO! Melhor parar por aqui...

Por fim, gostaria de anunciar que minha próxima postagem irá discutir os resultados da enquete que se encerrou há tempos sobre "o que é dança do ventre". Um assuntinho mais light! Até lá, queimemos nossos neurônios! Salam!


19 de julho de 2009

Dialogando com o Blog da Liana


Dia desses recebi um email de uma conhecida que indicava a leitura de um texto sobre dança, mais precisamente um post sobre dança do ventre em um blog. O nome do blog é bastante sugestivo: Life is a Drag. A autora é uma loira, chamada Liana. Fake ou não, Liana é bastante corajosa em expor tudo o que pensa sobre o mundo, as pessoas e o universo. Dei uma olhada no post sobre dança e em outros sobre as mulheres. E resolvi abrir um espaço aqui para dialogar.

Liana, você me trouxe à lembrança um pré-projeto que escrevi em 2001 onde eu me propunha a resgatar a dignidade da dança feminina. Peguei o velho esboço, estou com ele aqui no colo e decidi que é um bom momento para publicar algumas das idéias que estavam ali e que não tiveram espaço para se desenvolver - o projeto foi rejeitado pelo Programa de Pós-Graduação em História da UnB.

Na introdução eu dizia que minha experiência como mulher e artista era repleta de tensões, conflitos e questionamentos, que os anos de pesquisa gestual sobre o universo feminino no contato com as danças de orixás e na prática da dança do ventre me proporcionaram a percepção de que algumas manifestações femininas vinham sofrendo processos de descaracterização. Em 2001 identifiquei que esses processos consistiam basicamente no esvaziamento de sentido, na vulgarização e/ou na apropriação masculina dos papéis que eram essencialmente femininos.

No texto utilizei citação retirada do artigo "De Iyá Mi a Pomba-Gira: transformações e símbolos da libido" de Monique Augras, onde a partir de imagens míticas que se referem ao poder genital feminino a autora afirma que a difusão das representações brasileiras contidas nas religiões de origem africana

têm sofrido processo de progressiva pasteurização(...). Assim é que os
terreiros tradicionais de candomblé mantêm o culto dos deuses em toda

sua complexidade - embora de modo bastante discreto no que se refere

aos aspectos mais ameaçadores da sexualidade feminina -, enquanto a

umbanda parece ter promovido, em torno da figura de Iemanjá,
um
esvaziamento quase total do conteúdo sexual. (2000: pg.15)

Além desse trecho, citei as lutas travadas por algumas mulheres para conservar ou resgatar tradições e rituais em oposição à postura de outras mulheres que se comportavam como agentes opressores. Chamei esse comportamento de "aderência" ao opressor, referindo-me a termo de Paulo Freire e dei como exemplo o trabalho de Alessandra Belloni para resgatar a Tarantella da Calábria Italiana como dança ritual erótica e selvagem de purificação e cura. Belloni encontrou entre suas maiores opositoras as mulheres jovens, por incrível que pudesse parecer. Essa rejeição fortaleceu o trabalho dessa cantora e dançarina genial que passou a refletir sobre a necessidade de libertar essas jovens mulheres das teias sociais de repressão que elas mesmas ajudavam a tecer.

Não foi difícil pular da teia de Alessandra Belloni para a de Freud que em psicanálise abordou o "enigma da feminilidade" sugerindo que as mulheres inventaram a tecelagem para cobrir sua nudez e esconder o que nada tinham a esconder, utilizando a imagem da aranha que tece para representar o símbolo da mãe fálica.

Onde quero chegar com tudo isso, prezada Liana? Você já já vai entender... Após passar por Freud, dou uma parada na psicologia moderna para falar sobre a resistência ao arquétipo da grande mãe, utilizando para isso um texto de Carlos Byington: Dimensões Simbólicas da Personalidade (1988). Esse autor diz que a Inquisição causou uma dissociação entre a objetividade e a subjetividade, transformando os componentes subjetivos do saber em crenças supersticiosas e fontes de erro, enquanto o pólo objetivo tornou-se a única fonte possível de verdade. Em seguida, Liana, chego perto de você: afirmo que os obstáculos encontrados pelas mulheres que ousam trilhar o caminho que leva ao resgate da figura da grande mãe são variados e incluem a depressão, o desânimo e a discriminação. Você ainda foi além porque agregou os fatores competição e destruição! Parabéns! Só que... Pelo que pude notar, você não está do lado do feminino ao se posicionar, mas contra ele. Estranhei, mas cada um se manifesta como quer e pode. Aliás, eu deveria ter desconfiado quando li os slogans em seu blog "Pela volta dos loucos ao hospício" e "Só a lobotomia salva". Repito: corajosa essa tal de Liana! Em plena era de movimento antimanicomial (da qual sou adepta), levantar uma bandeira dessas requer bastante coragem. Pode também ser um pedido de ajuda, não? Porque a depender da interpretação, uma das primeiras a vestir a camisa-de-força seria você mesma, querida. Estou enganada? Nem me atrevo a negar que eu estaria também entre os primeiros candidatos a ocupar o pinel!

De todo modo agradeço a oportunidade e anuncio que o próximo post deverá continuar nessa linha, porque quero falar sobre mulheres maravilhosas que amargaram em suas vidas e carreiras simplesmente porque optaram por trilhar o caminho do feminino. É o caso de nós duas, colega Liana. Ainda bem que peguei uma bifurcação e meu caminho separou-se do seu há algum tempo!


2 de abril de 2009

Quem são as mulheres árabes?


Meu post anterior abriu uma veia no feminismo incrustado no mundo ocidental, deixando escorrer a generalização, muito comum quando se pensa em contextos culturais. Eu estava ali, assumindo meu orientalismo, mas talvez devesse explicar melhor todo o ocorrido para que não restem lacunas nessa discussão.
O orientalismo tem definições amplas e pode ser melhor estudado a partir dos textos de Edward Said. Ele criou essa expressão que dá conta de uma série de práticas e opiniões formadas a respeito do mundo oriental, com ênfase nas abordagens sobre a cultura árabe. Muitas vezes as pessoas criam conceitos e esperam encontrar entre os árabes imagens, situações e eventos que não existem na vida real. É uma tendência a fantasiar. E quando a fantasia não está presente, a realidade pode ser frustrante. Eu utilizei o conceito durante muitos anos para falar sobre meu maior tema de pesquisa: a dança do ventre. Tentando desmistificar preconceitos e cristalizações. Mas fui a mais recente vítima do orientalismo de que tive notícia nos últimos tempos.
Como havia dito, fui assistir ao programa sobre o Kalam Nawaem esperando encontrar imagens das décadas de 1940 a 1960, porque o nome do documentário era "Rainhas da TV Árabe". Na minha mente as tais rainhas só poderiam ser aquelas que eu havia visto na televisão do Cairo e de Alexandria. Por quê? Porque eu sou o centro do universo. Então o mundo tem que corresponder às minhas expectativas.
Dei de cara com outra realidade. Pode ter o verniz estadunidense, o revestimento da ganância capitalista, o formato ocidental batido, mas era algo que eu consideraria impossível de acontecer na mídia árabe. Foi um susto. E lógico que antes de avaliar mais profundamente a questão, postei meus comentários com louvações à iniciativa, dando vivas à globalização, porque afinal de contas tenho o direito de ser público, apreciar, me deliciar e dispor de uma fatia do senso comum.
Porém, antes de me debruçar sobre este recente fenômeno do mundo televisivo dos países árabes com rigor acadêmico, gostaria de perguntar a vocês algumas coisas:
Quem são as mulheres árabes?
São mulheres oprimidas, vilipendiadas, infelizes? Quem disse? Quantas são? Onde moram? O que pensam sobre isso? O que pensam sobre as mulheres ocidentais?
Quem são as mulheres não-árabes?
Eu sou? Você é? O que podemos falar sobre as coletividades humanas?
Ando lendo sobre multiculturalismo e percebi com alegria que minhas más impressões a respeito de como esse assunto é tratado no Brasil não eram apenas fruto de minha tendência a criar polêmica. É que no texto maravilhoso de Vera Maria Candau no primeiro capítulo do livro Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas, está a explicitação de tudo o que eu andava sentindo. Simplesmente existem inúmeras maneiras de abordar o multiculturalismo e no Brasil temos uma base muito forte, mas apesar disso, nossos discursos e práticas ainda estão longe de aplicar os princípios da alteridade. As duas concepções de multiculturalismo mais presentes nas sociedades atuais são: a abordagem assimilacionista e a monocultura plural (termo cunhado por Amartya Sen, 2006).
A primeira propõe uma universalização e estratégias compensatórias, onde acaba se defendendo uma cultura comum e hegemônica, tirando a legitimidade das variações de linguagem, valores, crenças, saberes, etc. Enfim, para fazer parte do todo os indivíduos acabam por abandonar o que os torna singulares.
Já na segunda abordagem a ênfase está no reconhecimento das diferenças. Mas a desvantagem fica na tendência a criar uma visão essencialista e estática da formação das identidades culturais. Os grupos se dividem em diversos segmentos, criando "verdadeiros apartheids socioculturais" (pg.22).
Posso dar exemplos das duas práticas apenas a partir do raciocínio que venho desenvolvendo sobre as mulheres árabes. Num primeiro momento, quando fiquei feliz por vê-las integradas ao mundo globalizado da mídia, dei vivas, porque assim haveria uma universalização e eu me sentiria mais próxima daquelas mulheres. Elas estavam ocidentalizadas, uma estratégia compensatória, então meu primeiro pensamento foi: "Estão vendo? As mulheres árabes não estão mais tão diferentes de nós!". Num segundo momento, quando tento apontar que existem as mulheres árabes que não usam véu, as mulheres árabes que estudam, as mulheres árabes que ocupam cargos importantes, as mulheres árabes mães de família, as mulheres árabes que se masturbam (como mostrado no programa da GNT), as mulheres árabes que se filiam ao terrorismo, etc, etc, etc, estou praticando o multiculturalismo diferencialista (ou monocultura plural).
Difícil mesmo é alcançarmos a Interculturalidade...
Mas aí é outro texto. Ainda chegarei lá!!! Allah u Akbar!

28 de março de 2009

Conversa Mole? Só se for no Brasil...


Dia desses, vi que o canal GNT apresentaria um documentário em homenagem ao mês da mulher (março é o mês da mulher, os outros são de quem?). O que me chamou a atenção era o título do documentário: Rainhas da TV Árabe. Não pude assistir na primeira exibição porque tinha o aniversário de uma amiga, mas de pronto peguei os dias onde seria exibido novamente e anotei os horários.

Aguardei ansiosa ao grande dia e esperava encontrar alguma coisa sobre as atrizes, talvez algo falando sobre Fifi Abdo, da qual sou grande fã, apesar de ela dizer publicamente que prefere ser atriz a dançarina. Feio isso, não querer ser reconhecida pela dança, mas tudo bem, eu perdôo. Afinal a dança que ela traz em seu corpo prescinde de qualquer outro mecanismo para ser gostada. E suas opiniões pessoais realmente não interferiram em meu juízo de valor.

Fui surpreendida por um documentário que falava sobre o programa de televisão de maior audiência no mundo Árabe. É uma espécie de Saia Justa (aquele outro programa da GNT). Quatro mulheres de diferentes países árabes, uma delas sempre utilizando o véu para cobrir os cabelos enquanto as outras três se exibem em figurinos pra lá de ocidentais. Fiquei pasma! Além de amealhar uma audiência em torno de 200 milhões de telespectadores a cada programa, aquelas senhoras falavam sobre temas que me impressionaram, e eu que tinha ido ao Egito em 2005 e achava que sabia da vida de lá.

É que quando estive no Egito naquele ano, tinha a impressão de ter feito uma viagem no tempo. Acho que por isso cristalizei uma impressão de que desde aquela época nada teria mudado e se eu fosse novamente até lá, viajaria novamente no tempo e estaria com a sensação cultural de alguma década do século passado. Mas não! Graças aos deuses, o programa foi ao ar em 2006 e eu lamentei não ter testemunhado tudo o que ocorreu desde então.

No documentário vi algumas das reportagens das quatro apresentadoras do Kalam Nawaem. No Brasil traduziram o nome do programa para “Conversa Mole”. Que lástima! Meu amigo egípcio me disse que na realidade a tradução deveria ser “Conversa Delicada”. Também acompanhei a opinião do público a respeito do que era apresentado na TV. Os temas eram: masturbação, homossexualidade, terrorismo, cirurgia plástica, sexo pré-marital e educação sexual. O público se manifestava de variadas formas. Um telespectador chegou a enviar uma carta onde dizia que o lugar das apresentadoras era no inferno. Elas fizeram questão de ler a carta durante o programa, como forma de polemizar a respeito de atitudes como a daquele leitor que se dizia muçulmano. Elas questionavam se era correto que um adepto do Islã se comunicasse com elas em termos de baixo calão, praguejando e desejando o que existia de pior. Pensei comigo: corajosas, as meninas! Mais uma vez me orgulhei de ser mulher.

Passei a olhar no Youtube algumas entrevistas, embora eu não consiga entender muita coisa. Com a ajuda do meu referido amigo egípcio, assisti a uma entrevista de dois atores sírios onde diversos estereótipos da sociedade árabe eram discutidos em termos bastante sérios e profundos. Também fiquei muito feliz com a entrevista de Sami Yusuf, cantor de quem sou fã desde o primeiro contato nos programas de televisão egípcios de 2005. A entrevista dele foi mais fácil de entender. Yusuf não fala árabe e a entrevista foi em inglês. A temática não poderia ser diferente. Mais polêmica. As apresentadoras tocaram em vários pontos nevrálgicos do hábito que o cantor desenvolveu de abordar temas do Al Corão. Também perguntaram como ele conseguia cantar tão bem em árabe se não falava o idioma. Ele respondeu meio constrangido que estava aprendendo e que sua pronúncia era boa justamente por causa de seus estudos corânicos.





Estou em busca de imagens do programa onde a dança seja tema. Talvez seja pedir muito. O programa ainda nem completou 3 anos de existência e já fala de homossexuais e mulheres que se masturbam. Falar de dança ali ainda seria muito chocante! Está certo que nem tudo está às mil maravilhas, o homossexual que deveria comparecer ao programa foi ameaçado de morte e teve que ser entrevistado por telefone. A mulher que dava seu depoimento sobre masturbação estava no escuro, não se podia ver sua fisionomia. Mas ainda assim, dei vivas a tanta mudança de comportamento! Para algumas coisas a globalização funciona. Kalam Nawaem é um exemplo disso.

Talvez o melhor resultado que esse programa venha a alcançar é a mudança orientalista de nossas visões ultrapassadas a respeito da coletividade árabe. Eu mesma, que morei numa família do Cairo durante minhas pesquisas de campo, fiquei surpresa com as minhas reações em relação ao documentário. Esperava menos. Ainda bem que estive enganada. Al Hamdo LeAllah!!

14 de agosto de 2007

A Ambivalência Corporal como Facilitadora das Diversas Formas de Exploração do Ser Humano

Nossa sociedade tem demonstrado grande ambigüidade em relação ao tema corpo e corporeidade. Percebo a existência de uma nítida separação entre corpo e mente, onde a mente é supervalorizada, bem como seus atributos racionais e lógicos. E a partir disso, poderíamos supor que o corpo tem permanecido em segundo plano, praticamente desprezado. Mas, ao mesmo tempo testemunhamos atualmente a grande preocupação com a estética corporal e os avanços da ciência no que diz respeito à longevidade e à manutenção da beleza. Todavia, essa preocupação desconsidera alguns aspectos da corporeidade pois o foco está restrito às formas do corpo em detrimento de conteúdos como a sensibilidade e a consciência corporal, os sentidos e os movimentos, entre outros.

Essa ambivalência corporal contemporânea auxilia os processos de exploração do corpo, porque a partir do momento em que a mente é privilegiada e o corpo é desconsiderado como agente da produção de conhecimento, esse corpo torna-se mero objeto, composto apenas de sua materialidade. Elizabeth Grosz no artigo “Corpos Reconfigurados” afirma que as discussões filosóficas a respeito do corpo até o final do século XX tentaram “minimizar ou ignorar completamente seu papel formativo na formação de valores” (GROSZ, 2000: p.47).

Entrando em contato com os programas de Combate e Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e ao Tráfico de Pessoas, observei a lacuna existente no que dizia respeito às considerações sobre o corpo e a corporeidade. Conversei sobre essa questão com algumas pessoas envolvidas nesses programas e encontrei no projeto TIP (Tráfico Internacional de Pessoas) da OIT (Organização Internacional do Trabalho) o apoio para iniciar um trabalho que visasse desenvolver reflexões e atividades de corpo.

As primeiras atividades foram realizadas durante o Seminário do PAIR (Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-juvenil no Território Brasileiro) do Governo Federal em parceria com Organismos Internacionais e a Sociedade Civil, ocorrido de 23 a 25 de setembro de 2006 na cidade de Fortaleza – CE. Foram oficinas de expressão corporal e sensibilização para o tema do seminário, direcionadas aos participantes inscritos. Os objetivos eram minimizar o stress corporal, visando otimizar as outras atividades durante o evento, por meio de alongamentos e auto-massagem; despertar a consciência corporal; promover reflexões sobre a transformação do corpo humano em mercadoria que pode ser explorada, traficada e violada de várias maneiras. Esses temas foram trabalhados a partir de vivências onde os participantes eram levados a experimentar sensações de limitação da mobilidade corporal com conseqüente perda de autonomia sobre seus gestos. O primeiro resultado se manifestou imediatamente após as atividades, quando os participantes conseguiram traçar paralelos entre as práticas corporais e situações vivenciadas no dia-a-dia inclusive no que dizia respeito a seus trabalhos no combate à violência sexual infanto-juvenil. Além disso, no decorrer dos 3 dias de seminário, os integrantes passaram a perceber melhor a postura de seus corpos enquanto estavam sentados durante as aulas e debates.

Ao avaliar positivamente essas atividades, comecei a pensar em aproveitar os espaços onde o corpo estivesse em foco para criar mecanismos mais eficientes de sensibilização. Considerando o tópico que visa fortalecer o protagonismo juvenil presente no Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil e percebendo que a participação dos jovens ainda era incipiente, sugeri a realização de cursos de formação e capacitação de jovens para que eles pudessem passar a ministrar as oficinas de corpo durante os eventos relacionados ao tema.

A iniciativa corajosa e pioneira de desenvolver esse projeto foi prontamente acolhida pelo Centro Camará de Pesquisa e Apoio à Infância e Adolescência do município de São Vicente – SP, que acumula uma experiência de quase oito anos no desenvolvimento de ações visando o enfrentamento da violência sexual, ocupando um lugar de referência no município e na região. Encaminhando a proposta para o projeto TIP da OIT, essa instituição encontrou a parceria necessária para realizar a capacitação.

De 05 a 09 de março de 2007 foi concretizada a primeira formação que teve duas linhas principais, pois além do objetivo de formar facilitadoras para atividades de expressão corporal a OnG estava naquele momento necessitando fortalecer sua equipe para desenvolver uma atividade considerada de extrema importância pelas integrantes da instituição: a prática da dança do ventre. Por isso, o método de formação foi denominado “Método Aiua! de Formação em Dança (do Ventre)”. Os parênteses significam que apesar de ser uma especialização em dança do ventre o foco não se restringe a ela, passando também por outras abordagens da dança e pela expressão corporal.

A dança do ventre tem sido uma das formas mais eficientes de resignificação das partes do corpo que sofreram com a violência física, em especial a sexual. Isso ocorre porque seus movimentos trabalham diretamente com as partes do corpo mais envolvidas nos atos que desconstroem a corporeidade de quem passa pelas mais diversas experiências negativas ligadas à sexualidade. Os movimentos suaves e ondulatórios dessa dança aparecem como elementos de cura e transformação emocional, conseguindo alcançar conteúdos que nem sempre o discurso verbal e as terapias convencionais são capazes de atingir. Segundo os relatos de quem passa por experiências negativas em relação à sexualidade, existe um momento em que sentem “sair do corpo”. Com a dança do ventre muitas vítimas recuperam a autonomia corporal, como uma espécie de retorno ao próprio corpo; também resgatam a auto-estima e adquirem uma visão de sexualidade saudável, vital, e sagrada no sentido de ser o veículo da criação da própria vida.

Contudo, as entidades patrocinadoras de instituições que enfrentam a violência e a exploração sexual nem sempre vêem com bons olhos a prática da dança do ventre. Em alguns casos ameaçam suspender o apoio financeiro caso essa prática conste dos quadros de atividade dessas instituições. No Camará muitas das jovens atendidas se sentiram extremamente beneficiadas com as aulas de dança. Mas tiveram dificuldades em manter as aulas por falta de apoio financeiro. Chegaram a produzir acessórios para a dança do ventre com o objetivo de vendê-los e arrecadar o dinheiro necessário para pagar a professora. Após dois anos de luta para manter a atividade, a concretização do curso de formação habilitou as próprias jovens a ministrar as aulas, podendo multiplicar esses conhecimentos e atender a quem se interessar em fazer parte do projeto.

Em 28 de março de 2007, durante o Fórum Nacional de Inserção Feminina nas Instituições Policiais promovido pelo Departamento de Polícia Rodoviária Federal, em parceria com a OIT, foi inserida na programação uma vivência ministrada por Valéria Alves, monitora da do Camará. Esse foi o primeiro resultado prático do curso de formação desenvolvido em março. E teve desdobramentos excelentes, apesar da curta duração. Foi uma aula de dança com foco em movimentos suaves e ondulatórios, exercícios de consciência corporal e relaxamento. Estavam presentes cerca de 150 policiais representando todos os Estados da Federação Brasileira.

Para as policiais foi uma atividade importante no sentido de refazer o contato com a corporeidade e sensibilizá-las em relação à importância de atividades como a dança nos contextos onde se busca uma maior consciência de si e de outros. Além disso, foi dado grande destaque à atuação da OnG, porque a monitora falou com detalhes como se dá o funcionamento dessa instituição. Sua própria desenvoltura e excelente condução da atividade ilustraram que o trabalho do Camará realmente prepara seus participantes para se inserir nas várias esferas sociais, trabalhando, atuando e se posicionando. Ao final da atividade, Valéria comentou que tinha uma visão distanciada e preconceituosa em relação às instituições policiais e destacou que foi importante para ela perceber que a polícia está composta também por mulheres sensíveis, vaidosas e muito bem informadas acerca das questões sociais.

Assim sendo, podemos destacar como conseqüências dessa primeira atividade os seguintes desdobramentos: a sensibilização das policias para seus corpos; o aumento do estímulo dessas policiais para desempenhar seus papéis no combate às diversas formas de violência contra crianças e jovens, porque foram diretamente beneficiadas com uma atividade criada a partir de um resultado que deu certo proveniente desse combate; e a possibilidade de conferir maior credibilidade à própria instituição policial, que passou a ser vista por Valéria com um olhar mais suave e livre de preconceitos, o que certamente será multiplicado por ela durante seu trabalho na OnG e no cotidiano.


Referências Bibliográficas:

GROSZ, Elizabeth. “Corpos reconfigurados”. In: PISCITELLI, Adriana, GREGORI, Filomena (org.). Cadernos Pagu: corporificando gênero, Campinas, SP, n.14, 2000. (45-86).

Brasil. Ministério da Justiça. SEDH/DCA. Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil. Brasília: MJ/SEDH/DCA, 2001.