18 de outubro de 2011
Por que sou fã de Mona el Said?
Tenho a gravação em VHS, mas me arrisquei e encontrei uma boa alma que colocou o video no youtube. Acabo de encontrar. Andei pensando muito nessa dançarina porque ela está no Brasil. E vem a Brasília dar um workshop e fazer um show. É uma rara oportunidade. Por que não estarei lá? Não estarei em Brasília... :(
Essa Deusa estará disponível para vocês!
Minha querida Aris Medrei, como sempre primando pela qualidade de seus eventos! Parabéns querida! Que Allah ilumine suas ações!
7 de janeiro de 2011
Dos selos de qualidade e as mulheres-fruta
Nesse tempo que andei parada aqui, muita coisa aconteceu. Por isso mesmo escrevi tão pouco ou quase nada, limitando o blog a anúncios de nossas produções antigas e novas.
A experiência de dar aulas num curso de licenciatura em dança me fez perceber o quanto as pessoas que dançam andam desgostosas com o ato de dançar. Parece que falta um sentido maior para suas danças, um sentimento mais amplo de fazer arte! Com a galera da dança do ventre ocorre o mesmo.
Certo dia, uma das dançarinas que cursam a licenciatura veio me dizer o quanto andava frustrada com a dança do ventre... Coisa básica que nós que dançamos há mais de 10 anos conhecemos. Pois bem, perguntei algumas coisas e descobri que ela havia investido um bom dinheiro para se firmar na área. Fez aquelas provas para ganhar o selo de qualidade - como aqueles que vemos nas frutas de supermercado. (será que as mulheres frutas têm o tal selo? vou perguntar à mulher melancia!). Vai frequentemente a uma casa de dança se apresentar para ganhar a quantia exorbitante de cinquenta reais - isso mesmo: R$50,00. Vai de avião, é claro. Ou seja, paga para dançar. Acredita que com isso vai alcançar um patamar na profissão! Perguntei quanto ela havia ganhado de retorno ao tal investimento. Nada!
Minha querida dançarina percebeu que havia sido enganada. Ela se transformou na Mulher-Damasco! Na transposição das mulheres frutas brasileiras para o mundo árabe podemos inventar umas tantas mulheres-comidas (sem trocadilho), algumas das quais conheço bem: a mulher-tâmara, a mulher-pistache, a mulher-esfirra, a mulher-babaganuj... A mais famosa do momento é a mulher-kebaab, fica nas esquinas ou em botecos, espalhados mundo afora, ganhando uns trocadinhos para ser consumidas pelo público interessado!
Para os que criaram o tal selo entrego o prêmio máximo, criado pelo saudoso Abelardo Barbosa: o Troféu Abacaxi!
23 de setembro de 2010
Primeira versão do Uroboro
Parece esquizofrenia, mas não é: Cínthia Nepomuceno e Gamila são a mesma pessoa em termos físicos, mas em termos artísticos são personas diferentes. Hehehe...
12 de agosto de 2010
Dança do Ventre no MEC
Dancei na aula inaugural do primeiro curso de licenciatura em dança de Brasília. Foi sexta-feira passada, dia 06/08/2010 - data que vai ficar na minha memória! Dancei acompanhada do magnífico músico egípcio Mahmoud e fui apreciada pelo também magnífico reitor Aléssio Trindade de Barros.
Na platéia os alunos da primeira turma, parentes e amigos, servidores e docentes do IFB, além do já citado reitor, proeminentes personagens do cenário cultural da cidade e a palestrante Cássia Navas.
Nem consigo descrever a emoção desse evento! Na hora de me arrumar, me olhei no espelho do elevador privativo do senhor ministro. Tudo muito chique! Mas sabe o que foi o melhor de tudo? Foi ouvir os depoimentos depois, pessoas de todos os tipos dizendo "nossa, não imaginava que dança do ventre era assim..." É claro que eu usei um figurino adequado, fechado, composto, bonito, charmoso e brilhante! E a dança chamou mais atenção do que eu, meu corpo, as partes do meu corpo. E todo mundo viu a dança!
Uma maravilha! Aiua!
31 de julho de 2010
24 de julho de 2010
Cheiro de tinta
Como estamos nos reunindo e o clima do grupo está delicioso, lembrei da piada infame! Eu e minhas associações nada a ver, hehe... É que o Aiua! sempre foi assim: delicioso! Está delicioso.
Juntamos meninas do Aiua! antigo, gente que foi aluna de minhas aulas, pessoas amigas de outras que nunca tinham dançado comigo, aquela mistura boa e gratificante. É lógico que tivemos alguns probleminhas, como num dia em que a improvisação travou e deu em nada. Normal. Temos espaço para expressar nossas frustrações e tal... Normal mesmo!
E é com esse cheiro de tinta do clima que está pintando que divulgo os bastidores de uma apresentação do Aiua! do século passado. Sempre fomos assim: um grupo cheio de vida e de diversão, um grupo diversificado, um grupo de pessoas amigas. Cabelos e maquiagens foram cortesia da Enjoy (aquele salão de beleza maravilhoso da asa sul, todo fashion). Fizeram visuais de acordo com os rostos de cada uma de nós, buscando fugir do convencional. É isso que continuo buscando! Aiua!!
18 de julho de 2010
Aiua! is Back!!!!!
O Aiua! retorna depois de quase quatro anos de geladeira. Tivemos uma primeira reunião ontem na UnB, com a participação de 8 novas integrantes - comigo 9. Outras 5 pessoas justificaram ausência. Testamos novas tecnologias - cenários virtuais e sonoridades pesquisadas com equipamentos eletrônicos.
Como bônus, resolvi publicar no Youtube muitas de nossas apresentações do século passado...
Primeiro uma coreografia apresentada no Jogo de Cena, depois uma maluquice techno feita sob encomenda para uma festa. Tudo de 1998 (por isso os problemas de qualidade de imagem - eram VHS já com qualidade baixa, passamos para DVD e agora demos uma convertida básica para a internet). Mesmo assim, enjoy:
A segunda coreografia, toda sincronizadinha, foi um escândalo na época. Nos apelidaram de "Holiday on Ice" da dança do ventre, rs... Particularmente, morro de orgulho!
Esse dia foi memorável! Pena que os sons das gravações ficaram tão ruins...
10 de julho de 2010
SELEÇÃO

Preciso de pelo menos 4 mulheres que dancem, podem ter conhecimentos básicos. A idéia é remontar o Aiua!, mas inicialmente faremos uma pequena montagem coreográfica. As pessoas devem ter uma formação mínima em dança do ventre.
Importante observar que os ensaios ocorrerão em Brasília. Teremos apresentações públicas já no próximo semestre.
Interessadas, favor entrar em contato: gamilas@gmail.com
Por favor divulguem, caso saibam de pessoas que possam ter o interesse em integrar as montagens, ou pelo menos a primeira delas.
2 de abril de 2010
Novas aulas com Gamila
Criação Artística em Dança do Ventre

A parte de desenvolvimento técnico em dança do ventre é mais curta que nas aulas tradicionais, todavia são trabalhados os movimentos básicos e híbridos. Ademais, são estudadas as formas de mover e partes do corpo envolvidas em cada movimento específico. Os laboratórios criativos são de maior duração e trabalham o contato com a personagem cênica a se desenvolver no percurso para auxiliar as criações artísticas em dança do ventre e posteriores performances públicas. É considerada a parte sensorial de cada indivíduo - a visão, olfato, paladar, tato e audição. Esses sentidos são vetores para propiciar estados de consciência que facilitem a expressão individual.

Finalizando as aulas, temos estudos de composição coreográfica e improvisações dirigidas para estimular a criatividade e ampliar o repertório gestual.

Aquelas que se interessarem terão a oportunidade de integrar o Aiua! Tribo de Dança, companhia criada em 1997 e que agora retornará ao cenário cultural de Brasília vinculada ao Ayuny. Os ensaios do Aiua! deverão ocorrer imediatamente após as aulas regulares, com duração de 15 a 30 minutos.

SCLN 403 Bloco C Loja 65 - Asa Norte - Brasília, DF
(61) 8508 7385
Funcionamento da secretaria: 17:30 às 21:00.
Aos sábados, das 09:00 às 12:30
www.ayuny.com.br
23 de março de 2010
Dança Flamenga
Sou flamenguista e agora ser flamenguista está em alta. Futebol é um tema que nunca sai de moda. Pensei em adaptar umas chuteiras com solados para fazer sapateados num tablado. Usar variados recursos. Quem sabe recriar o hino em ritmo flamenco. "Siempre flamengooooooooo... oooo... ooo" com umas lamúrias estilo Carmem, palmas batendo num ritmo de torcida organizada. Olha que daria pano para a manga! E para o mengo.
Quem quer participar? Audições, ou melhor, seleções a partir da próxima semana. Enviem currículos. Jogadores de futebol, balaoras profissionais, todo mundo terá a chance de estar no espetáculo. E vou remunerar bem, afinal, não vai ter dança do ventre no meio para "vacalhar" como diria um egípcio muito amigo meu!
Uma vez ranzinza, ranzinza até morrer...
12 de janeiro de 2010
O velho e bom Aiua!
Como gosto de ilustrar esse blog, resolvi contar umas historinhas daquele grupo.
Vejam só:

Tínhamos coreografias simples também, tenho fotos lindas daquele início... Dançando para milhares de pessoas na festa de encerramento do festival de cinema de Brasília em 1997, por exemplo. Vejam:

Vou fazer esse post pequeno, para desfrutar de outros posts sobre o Aiua! durante o ano que se inicia. É o ano do Tigre no horóscopo chinês. Sou tigre. Algo de bom deve sair dessa configuração. Quem sabe um Aiua! mais selvagem, mais tigrado, mais 2010 possa ser inaugurado, reinventado, renascido! Aiua! para todos nós.
17 de novembro de 2009
O que é a dança do ventre?
Na prática, a dança solo improvisada, tanto para homens quanto para mulheres, é a forma primária de dança, com muitas variações individuais e locais, por todo o Egito. Essa forma de dança é talvez a mais mal interpretada tradição de dança no mundo. Em uma de suas numerosas formas é conhecida como dança do ventre, ou danse orientale ou raqs sharqi, como seu praticante preferir.
19 de julho de 2009
Dialogando com o Blog da Liana
Dia desses recebi um email de uma conhecida que indicava a leitura de um texto sobre dança, mais precisamente um post sobre dança do ventre em um blog. O nome do blog é bastante sugestivo: Life is a Drag. A autora é uma loira, chamada Liana. Fake ou não, Liana é bastante corajosa em expor tudo o que pensa sobre o mundo, as pessoas e o universo. Dei uma olhada no post sobre dança e em outros sobre as mulheres. E resolvi abrir um espaço aqui para dialogar.
Na introdução eu dizia que minha experiência como mulher e artista era repleta de tensões, conflitos e questionamentos, que os anos de pesquisa gestual sobre o universo feminino no contato com as danças de orixás e na prática da dança do ventre me proporcionaram a percepção de que algumas manifestações femininas vinham sofrendo processos de descaracterização. Em 2001 identifiquei que esses processos consistiam basicamente no esvaziamento de sentido, na vulgarização e/ou na apropriação masculina dos papéis que eram essencialmente femininos.
No texto utilizei citação retirada do artigo "De Iyá Mi a Pomba-Gira: transformações e símbolos da libido" de Monique Augras, onde a partir de imagens míticas que se referem ao poder genital feminino a autora afirma que a difusão das representações brasileiras contidas nas religiões de origem africana
terreiros tradicionais de candomblé mantêm o culto dos deuses em toda
sua complexidade - embora de modo bastante discreto no que se refere
aos aspectos mais ameaçadores da sexualidade feminina -, enquanto a
umbanda parece ter promovido, em torno da figura de Iemanjá,
um esvaziamento quase total do conteúdo sexual. (2000: pg.15)
Além desse trecho, citei as lutas travadas por algumas mulheres para conservar ou resgatar tradições e rituais em oposição à postura de outras mulheres que se comportavam como agentes opressores. Chamei esse comportamento de "aderência" ao opressor, referindo-me a termo de Paulo Freire e dei como exemplo o trabalho de Alessandra Belloni para resgatar a Tarantella da Calábria Italiana como dança ritual erótica e selvagem de purificação e cura. Belloni encontrou entre suas maiores opositoras as mulheres jovens, por incrível que pudesse parecer. Essa rejeição fortaleceu o trabalho dessa cantora e dançarina genial que passou a refletir sobre a necessidade de libertar essas jovens mulheres das teias sociais de repressão que elas mesmas ajudavam a tecer.
Não foi difícil pular da teia de Alessandra Belloni para a de Freud que em psicanálise abordou o "enigma da feminilidade" sugerindo que as mulheres inventaram a tecelagem para cobrir sua nudez e esconder o que nada tinham a esconder, utilizando a imagem da aranha que tece para representar o símbolo da mãe fálica.
Onde quero chegar com tudo isso, prezada Liana? Você já já vai entender... Após passar por Freud, dou uma parada na psicologia moderna para falar sobre a resistência ao arquétipo da grande mãe, utilizando para isso um texto de Carlos Byington: Dimensões Simbólicas da Personalidade (1988). Esse autor diz que a Inquisição causou uma dissociação entre a objetividade e a subjetividade, transformando os componentes subjetivos do saber em crenças supersticiosas e fontes de erro, enquanto o pólo objetivo tornou-se a única fonte possível de verdade. Em seguida, Liana, chego perto de você: afirmo que os obstáculos encontrados pelas mulheres que ousam trilhar o caminho que leva ao resgate da figura da grande mãe são variados e incluem a depressão, o desânimo e a discriminação. Você ainda foi além porque agregou os fatores competição e destruição! Parabéns! Só que... Pelo que pude notar, você não está do lado do feminino ao se posicionar, mas contra ele. Estranhei, mas cada um se manifesta como quer e pode. Aliás, eu deveria ter desconfiado quando li os slogans em seu blog "Pela volta dos loucos ao hospício" e "Só a lobotomia salva". Repito: corajosa essa tal de Liana! Em plena era de movimento antimanicomial (da qual sou adepta), levantar uma bandeira dessas requer bastante coragem. Pode também ser um pedido de ajuda, não? Porque a depender da interpretação, uma das primeiras a vestir a camisa-de-força seria você mesma, querida. Estou enganada? Nem me atrevo a negar que eu estaria também entre os primeiros candidatos a ocupar o pinel!
De todo modo agradeço a oportunidade e anuncio que o próximo post deverá continuar nessa linha, porque quero falar sobre mulheres maravilhosas que amargaram em suas vidas e carreiras simplesmente porque optaram por trilhar o caminho do feminino. É o caso de nós duas, colega Liana. Ainda bem que peguei uma bifurcação e meu caminho separou-se do seu há algum tempo!
7 de julho de 2009
O Fácil é o Certo, já diziam os Titãs... *
Gosto de usar certas frases dos Titãs durante a minha vida, porque considero que elas sintetizam meus estados de espírito... E no momento, ainda que a inspiração deles tenha sido o pensador chinês Chung Tsu são as vozes titânicas cantando “o fácil é o certo / o certo é o fácil / o fácil é o certo” que não me saem da cabeça, depois de pensar sobre a dança do ventre e treinar certos movimentos. Parece óbvio para mim que quanto mais esforço eu emprego, pior sai minha dança. Difícil é ensinar isso! As pessoas estão acostumadas a “no pain, no gain” (sem dor não se ganha nada). A lei do maior esforço contaminou a mente contemporânea. Mas quando o assunto é dançar, sou pela lei do menor esforço.
Em sintonia com meus pensamentos encontrei o DVD Power Wave de Gabrielle Roth, uma pesquisadora e dançarina estadunidense que realiza há muitos anos um trabalho notável na área de dança. Sua onda poderosa, como denomina seu método de dançar, requer tudo, menos esforço. No DVD onde demonstra os cinco ritmos em que divide seu método, constantemente ouvimos a voz de Gabrielle repetindo “suave”, “sem esforço”, “deixe fluir”, “não se extenue”, “não se canse”... E por aí vai...
Muitos dos movimentos que aprendi ao longo de minha vida como dançarina só foram realmente assimilados quando relaxei. Enquanto me mantive tensa, com toda a musculatura arduamente envolvida na atividade, o máximo que alcancei foram lesões. Perceba-se aprendendo. Se estiver muito difícil, não está certo. Tem alguma coisa errada com o método. Não é com você o problema. Geralmente é com quem está ensinando. Por isso sempre fui a favor da iniciativa autodidática. Apesar das desvantagens de se estar sozinho, é mais provável que você consiga se respeitar e reconhecer limites, saber o que funciona melhor e buscar o andamento mais apropriado para se desenvolver. “Faça o que está fazendo / Não o que estou lhe dizendo”, novamente a música...
Os Titãs se inspiraram na frase de um pensador chinês do século III; Gabrielle Roth pesquisou várias culturas orientais e foi meditadora, adepta de Osho, assim como eu. Talvez seja necessário levar a sério o oriente para alcançar a transcendência. Orientar-se! Finalmente, ainda com a música em mente, deixo outra mensagem deles para encerrar o assunto: “Tanto faz como se chama / Entregue-se ao que você ama”.
*Publicado anteriormente na coluna do site Tribos de Gaia
12 de junho de 2009
Baba Zula: estou babando!
Que tipo de cegueira ou idiotice se apossou de meu ser nesses 13 anos durante os quais permaneci ignorante da existência de um grupo como o Baba Zula? Saber da atuação de artistas dessa magnitude na Turquia teria me poupado saliva quando abria a boca e desgastes nos dedos quando teclava para criticar a estética turca de dança do ventre.
Baba Zula surge como um oásis em meu deserto de informações, demonstrando ser possível manter a estética da dança do ventre e aliar música, artes visuais, performance art, poesia, teatro de animação, computação gráfica, inovações de figurino, em apresentações ritualísticas com um look pra lá de contemporâneo. E fazem isso desde 1996!
Graças a um scrap de uma amiga preciosa de orkut, também ávida pesquisadora da área, pude saber da existência de um movimento artístico-cultural belo, inovador que me enche de esperança, inspiração e vontade de conhecer pessoalmente essas criaturas dotadas de uma energia impressionante!
Eu, que estava prestes a melhorar meus conhecimentos sobre a língua árabe para fazer nova incursão ao Egito, penso que talvez seja o caso de estudar o idioma turco e voltar minhas atenções e economias para uma visitinha a Istambul. Vamos?
Para saber mais sobre Baba Zula: www.babazula.com
4 de junho de 2009
ENTREVISTA COM MAHMOUD AL-MASRI
Com mais de um ano de atraso, publico aqui a entrevista que realizei com esse egípcio fascinante para meu livro, porque até agora não consegui finalizá-lo para a publicação e considero muito importante divulgar essas informações preciosas que consegui. Obrigada, Mahmoud!
20/03/2008
Mahmoud El Masri é o nome artístico de Mahmoud Hassabou, um egípcio radicado no Brasil há 28 anos. Com excelente pronúncia e apenas um resquício do sotaque árabe, devido à longa permanência no Brasil, Mahmoud falou com propriedade sobre a dança do ventre em uma entrevista de pouco mais de uma hora de duração.
Segundo Mahmoud, falar sobre dança do ventre é algo muito complexo. Principalmente no Brasil, onde muita gente se ofende com as críticas desse egípcio que é um profundo conhecedor dessa arte milenar. Ele considera um privilégio poder falar abertamente sobre todos os assuntos aqui e compara nossa liberdade de expressão às restrições de seu país de origem. “Na minha terra isso é uma coisa um pouco mais rara, mais difícil... Poder expressar da forma que a gente se expressa aqui. Então se eu vivo aqui, um dos maiores motivos é que eu me sinto mais livre, sou um cidadão e posso falar, elogiar, reclamar e me expressar”. Seguem os trechos principais da entrevista.
Sobre o ensino da dança do ventre nos países árabes
Em primeiro lugar, em vários países árabes a dança do ventre era e ainda é proibida. Onde não havia proibição, o ensino dessa dança foi realizado tradicionalmente pelos homens e não por mulheres. Eram coreógrafos. Existiam apenas coreografias. Não existiam professoras porque a dança do ventre, a meu ver, é a dança da sensualidade, e a sensualidade ninguém ensina. Acho que cada mulher no momento em que está dançando tem sua linguagem própria, seu jogo de quadril, o uso das mãos, sua expressão, cada uma tem um olhar diferente, um sorriso diferente, tem seus passos específicos, tudo é diferente. E se uma professora quiser que ela dance igual a ela, ela perde todo o lado sensual da dança. Há alunas que se destacam, mas isso não quer dizer que precisam ser lapidadas. Acho que se pode lapidar sim, mas o principal é a sensualidade. A dança também pode ter uma conotação sexual, dependendo do tipo de dança. Até pode ser dança do ventre, se a pessoa quiser dançar para o marido ou namorado num quarto, acho que tudo é válido. Vivemos num país diferente, num país livre, cada um faz o que quer. Expressamos muito as opiniões aqui, eu acho que a questão do sexo no Brasil é mais esclarecida, sem dúvida. Os pais conversam muito sobre sexo com os filhos, nas escolas existem aulas sobre isso, propagandas do governo federal. Em comparação ao mundo árabe o Brasil é muito mais aberto em relação a isso.
Para nos referirmos à dança do ventre que é dirigida ao público em geral, é necessário perceber o que há ao redor dessa dança: tradição, costumes, hábitos, modos de dançar, maquiagens, música, ritmo, harmonia, luz, som, palco, platéia. Aqui no Brasil não há essa preocupação. Aqui é a professora, a aluna e ponto final. Considero muito pobre essa visão. O ensino da dança não pode de maneira nenhuma ser rígido. Pode até haver uma rigidez em relação aos horários, essas coisas básicas. Mas expressar uma alegria, eu acho que isso não se ensina. A pessoa sorri espontaneamente, e quando a gente sorri espontaneamente o sorriso é muito mais bonito do que se uma pessoa te ensinar a sorrir. Então são coisas totalmente diferentes. Sentimento ninguém ensina. Essa alegria vem de dentro.
Opiniões críticas sobre a prática da dança do ventre no Brasil
Aqui, algumas vezes, as dançarinas estão mais preocupadas com a estética corporal, em usar roupas transparentes e então fogem da tradição, do costume, acabam caindo na vulgaridade. A dança acaba perdendo a beleza de ser tradicional e estar em um país totalmente democrático. Aqui não existem tradições tão antigas. O Brasil tem 500 anos de idade, é um bebê perante o mundo inteiro. E aqui temos misturas de todo o mundo. Por isso tem gente bonita. Misturas de culturas que procuram preservar as tradições. No sul, os descendentes de alemães e italianos quando em suas danças típicas mantêm a tradição. Não alteram suas roupas típicas achando que precisam mudar os costumes porque vivem num país livre. Nas colônias alemãs as maquiagens, trancinhas nos cabelos, vestidos longos e bem grossos, permanecem sendo utilizados. Até por causa das temperaturas frias da Alemanha se dança com aquelas roupas. E mesmo vivendo no calor daqui nunca substituíram as roupas por algum tecido bem fino... Com as outras culturas acontece a mesma coisa, seja entre os japoneses, chineses, latinos ou russos que estejam morando aqui. Mas quando o assunto é dança do ventre acontece a falta de respeito às tradições. Arrasam a dança. E quando eu tento expressar minha opinião algumas dançarinas respondem que aqui é um país livre e democrático... Muitas delas só se preocupam em se mostrar super sexy... Mas se perguntarmos aos casais e outras pessoas do público o que eles pensam sobre a dança do ventre, muitos vão dizer que é vulgar. Algumas mulheres não querem que o marido assista ao show porque muitas bailarinas quando dançam exibem uma sexualidade que incomoda. Acho que essa mentalidade estragou a dança do ventre aqui no Brasil. E acabou estragando a dança nos próprios países de origem. Estão viajando daqui para lá, com o objetivo de estragar por lá também. E conseguem, tentando dizer que é uma abertura...
Da relação entre professoras e alunas
Em minha opinião, a dança do ventre não chega a ter nem dez passos. Mas para prender as alunas, as professoras demoram anos para ensinar esses dez passos. Agora, eu me pergunto: quem tem mais dificuldade? A professora ou a aluna? Eu não sei. Porque se em um ou dois anos não aprendem dez passos... A professora não consegue ensinar dez passos em dois anos... E isso é um tempo médio, tem gente que demora três, quatro, cinco anos e quando vai dançar ainda não consegue. Outras aprendem, mas quando você olha, elas não estão dançando, são cópias das professoras. Até o sorriso é igual, até o andar é igual. Querem imitar a professora. Aí, quando estão dançando elas não existem, são outras pessoas...
As bailarinas querem modernizar a dança do ventre, mas escolhem nomes artísticos entre os nomes árabes tradicionais. Por que não passam a usar nomes modernos, cibernéticos? Desmoralizam a dança, mas querem ser tradicionais em alguns pontos. Existem muitos equívocos em relação à dança do ventre.
Eu ministro um workshop, mas ele é único. Não dá pra repetir porque não há mais nada o que ensinar. Apenas um já é suficiente. A dança surgiu, foi criada e desenvolvida e está aí. Esse ensinamento é único. Não tem mais o que inventar. É como as notas musicais. Só precisamos de sete notas para compor uma música, na escala tradicional. A dança do ventre é simples assim. Como o alfabeto que já é suficiente para comunicar. E a partir desse repertório temos a possibilidade de criar. É isso que vale! Aperfeiçoar o que você tem, o dom que você tem. Aprenda o básico!
A importância da música e das tradições
No caso específico da dança do ventre, música e expressão corporal nunca podem se separar. São duas coisas
No Brasil, com essa tendência de misturar várias manifestações acontecem coisas inadequadas. O khaleege, por exemplo, passou a ser uma dança separada, mas não existe kaleege separado. É um folclore onde não existem danças individuais. Esquecem-se das tradições, não estudam o contexto cultural dos países onde as danças são praticadas. Procuram se informar apenas sobre o que está na moda em termos de dança e pronto! Tudo o que movimenta o corpo é considerado dança e fim de papo! Não é por aí. Têm que saber história, tradição, costumes, hábitos. A falta desse aprofundamento dá margem à criação desses equívocos como o que acabei de citar.
No nordeste do Brasil, as mulheres ficam na beira do rio cantando, existem os repentistas, os homens na lavoura... E no mundo inteiro existem esses cantos, alguns para passar o tempo, etc. Até os soldados, cantam em seus treinamentos. Exércitos do mundo inteiro cantam. A música está em qualquer lugar onde a gente anda. Muito importante e as outras coisas se encaixam nela. Os sons... Tudo é musica.
Sobre os problemas do aprendizado e outros comentários
Acho que nós somos modernos, tentamos ser modernos, mas existe o lado racional de pensar, entender. Eu vejo tanta gente inteligente aprendendo dança do ventre, mas eu calculo assim: existem muitos tipos de seita que tentam conquistar adeptos com falsas promessas. Alguns são enganados por essas seitas ou por pessoas, de todas as formas. Às vezes uma pessoa quer vender alguma coisa e te engana. Mas a gente tem que prestar atenção. Se eu for enganado em algum lugar, vou ter mais cuidado em relação àquele lugar. Mas eu vejo muita gente aqui que fala que tem tantos anos aprendendo a dança do ventre e tem vergonha de se apresentar, diz que não sabe dançar, nunca dançou. Eu vejo como se essas pessoas estivessem sendo enganadas. E o tempo passa, mundo anda e ela não está percebendo isso tudo. É isso que eu vejo. Muitas bailarinas que dançam e levaram um tempão pra aprender a dançar.
Não quero falar muito sobre bailarinas do Egito porque, como eu acabei de falar, danças do ocidente foram para lá e acabaram contaminando. Contaminaram com isso que eu digo, modernizaram, colocaram o lado sexual mais importante do que qualquer coisa. Existe uma grande diferença entre a sexualidade e a sensualidade. Sensualidade é sutil e a exposição da sexualidade não é adequada para estar na dança voltada para o público. As bailarinas precisam tomar cuidado com os olhares, os sorrisos de um jeito diferente para as pessoas que assistem. Não confundir a dança com um jogo de sedução. Definitivamente a bailarina não está ali para seduzir os homens.
Então vemos as danças. Tudo bem. Aí passam a ensinar aquilo que nunca se dança. Muitas professoras falam: “vou ensinar tal dança”, mas essa dança não existe, não se dança. Ela vai ensinar para os alunos. Mas por que ela vai ensinar, se ela mesma não dança ou nunca dançou essa dança específica?
Também falam de danças folclóricas e confundem com outras danças. Temos que prestar atenção. O que é dança? Em qualquer parte do planeta terra tem gente que dança, cada um do seu jeito. Então eu não posso pegar a imagem do vizinho, que eu vi dançando na varanda, e dizer que eu vou inventar a “dança da varanda do vizinho”. Isso não funciona! Temos que selecionar as danças que encantam.
Das danças folclóricas
Existem danças folclóricas tão bonitas! São dançadas no mundo inteiro. Mas existem danças que não fazem parte desse grupo. Danças regionais de lugares tão pequenos... Não digo que esses lugares e essas danças não valem nada, não é com essa a intenção que eu falo. Eu falo porque elas não são reconhecidas artisticamente, porque têm mais ritual do que dança, propriamente. Não podemos confundir rituais com danças. Se quisermos mostrar a dança das lavadeiras, por exemplo, temos que representá-la num contexto. Não apresentar a dança como uma coisa isolada, mas como parte de uma cena específica, que pode ser elaborada artisticamente.
Vamos falar sobre o Líbano. Você sabia que hoje temos muito mais libaneses no Brasil do que no próprio Líbano? A dança folclórica libanesa é o dabke, conhecida no mundo inteiro. Uma dança marcante. Com essa dança muitas coisas são festejadas. Ela tem uma marcação forte. O dabke se criou na área do Líbano, Síria, Palestina, em todos esses locais se dança o dabke. Mas o dabke libanês é mais coreografado. A música é preparada exclusivamente para essa dança.
Temos também o saidi: dança folclórica egípcia, até as mulheres da dança do ventre dançam saidi. Aqui as pessoas preferem as danças provocativas. Então, vêm e escolhem a dança da melea laef. E o que é melea laef? Melea laef é uma coisa de respeito. Era uma roupa que se usava tempos atrás, um estilo de roupa, um véu preto enrolado no corpo. Até hoje em muitos países da áfrica usam-se tecidos enrolados no corpo em vez de tecidos costurados. Em alguns países usam a seda. São costumes. Só que a prostituição, que é uma prática muito antiga, se utilizou desse artifício para incrementar as provocações. Algumas mulheres andavam com o melea laef para os portos, aonde chegavam navios de outros países. Sempre houve muita prostituição nos portos, é uma prática conhecida. Onde tem porto, tem prostituição, desde o tempo dos profetas... Então as prostitutas iam mostrar o corpo pra seduzir os homens, com roupas de dormir por baixo... É essa a dança que se mostra aqui. Essa realidade sempre existiu.
A roupa que se usa por baixo do véu melea laef nas danças representadas aqui é uma camisola. A maioria dessas mulheres que iam aos portos usava camisola. Mas muita gente usava melea laef, não quer dizer que era roupa de prostituta. Então melea laef qualquer pessoa usava. Só que as prostitutas usavam para dançar e provocar. Também existiam outras mulheres que usavam esse tipo de roupa em danças folclóricas. Mas o que é representado aqui no Brasil é a imagem da prostituta. Não é o lado folclórico da melea laef. As duas manifestações têm a mesma origem, mas cada uma se desenvolveu de modo diferente.
Aqui, as mulheres dançam fazendo gestos para imitar aquelas mulheres dos portos, sem saber o que estão realmente representando. Não tenho nada contra que se criem peças de teatro para representar a prostituição, mas não precisa da dança do ventre. Para isso, acho que aqui existe muita abertura, existem vários locais onde se pode representar todo tipo de história. Quem quiser pode criar coreografias que mostrem as danças das prostitutas, mas, por favor, não misturem essas representações com a dança do ventre! Isso denigre a imagem da própria bailarina que está dançando e achando que está fazendo bonito. É por essas e outras que a opinião do público do Brasil é de que a dança do ventre está relacionada à prostituição... E isso não sou eu que digo não, eu quero que qualquer professora pergunte ao público o que eles acham, mas não vale entrevistar os pais das alunas, os maridos, as amigas, os familiares, as pessoas que já estão habituadas com essas apresentações. Entrevistem pessoas que não fazem parte desse universo. Quero dizer, a maioria das pessoas que assiste. O que elas vão achar? Vamos perguntar se alguma mulher gosta que o marido vá sozinho assistir dança do ventre? E por que não?
Considerações finais
Eu não concordo com a teoria de que a dança do ventre no Brasil virou moda. Não, para mim não é moda. Virou comércio, uma forma de lucrar. Mas não é moda, nem tradição. Nem sensualidade. E acho que se ensina muito mal. Por que grande parte das bailarinas não sabe que música está tocando, quem é que está cantando, qual instrumento está sendo tocado. Eu quero saber se existe um cantor que não saiba o nome dos instrumentos que estão no palco em que ele canta. Não existe isso! Quem quer ser músico tem que saber o nome dos instrumentos. O mínimo que a bailarina devia saber é o nome da música. Poucas sabem. Mas a maioria fala “eu quero dançar a música número sete!”. Dizem que não sabem o nome das músicas e acham isso normal.
Quando a gente for ensinar dança do ventre tem que ensinar primeiramente a música. Eu costumo falar que a gente dança conforme a música... Dança do ventre tem que ter musica. Se não tem música não tem dança. Pode ter música árabe sem a dança, mas não pode existir dança do ventre sem música. Veja como isso é fundamental, quem for dançar tem que aprender a música. É muito fundamental, o básico dos básicos. A primeira coisa é a música. Ela vai dar inspiração para dançar, ela vai modelar a bailarina que está na sua frente, é com base na música que se faz a coreografia, com ela a dança começa e termina. A dança ensinada no Brasil exclui a música. Consideram importante para o ensino apenas falar dos passos: shimmy, camelo, básico egípcio e pronto. Só falam isso.
Muitas bailarinas falam que é difícil aprender sobre as músicas, mas acham fácil ir a São Paulo fazer roupas novas, comprar um pedaço de tecido, pedrinhas, lantejoulas, e tal. Vasculham a cidade para comprar uma roupa, mas quando o assunto é música, enchem de dificuldades. Para mim, quem tem boca vai a Roma. Dançar é muito simples se você aprender a música. Você vai dançar sozinha, com certeza. Precisa de uma orientação, mas você pode dançar sozinha com a música, sem uma professora, sem saber nada de dança do ventre. Dançará do seu jeito, porque estará entendendo a musica. A música pode te proporcionar essa experiência. Agora imagine se você ainda puder entender o que a musica está dizendo! Imagine o que ela poderá proporcionar. Mas tem bailarina que fala “nossa essa música é uma delícia!”, mas não sabe a letra. E mesmo sem saber nada diz que é linda. Imagine se ela souber o significado do que está tocando, em cada parte o que a música diz... Todas as músicas falam alguma coisa, têm história, por isso foram feitas. Se existe letra, mais ainda. A expressão é mais clara ainda. Mas aqui não se fala sobre isso, não se entende nada sobre isso. Temos que entender como funcionam as coisas, aqui só se mexe o corpo. E quando se mexem querem fazer tudo de forma exagerada. Muitas vezes usam os pontos mais baixos que podem colocar dentro da dança como destaque. Esquecem da simplicidade, da beleza da dança, da suavidade, da sensualidade, esquecem de tudo isso. Colocam agressividade, sexualidade, exageros, vulgaridade.
Agora está na moda inventar danças exóticas para ensinar como novidade. Acho que não precisavam inventar a dança de peneirar trigo na Jordânia. Com todo respeito à Jordânia, mas o que peneirar trigo tem a ver com dança? A dança de recolher feijão da terra? Não existem essas coisas... Vamos pelo mais tradicional. Vamos dançar um dabke, por exemplo, que tem coreografias bonitas, vamos ensinar danças folclóricas árabes, egípcias, temos tantas danças folclóricas lindas, então é isso que eu quero dizer.
Eu não sei se eu peço, se eu rezo ou desejo, ou se eu imploro que possamos olhar para a dança de uma forma diferente. Devemos olhar a dança como arte. Não como quebra-galho ou algo que vai acabar com complexos de inferioridade. Tem gente que dança porque tem complexo com o corpo e a dança do ventre pode curar isso. São coisas que terapeutas vão resolver. Se quiserem usar a dança como terapia, usem, mas não com o público. Usem como terapia pra vocês. Agora não procurem expor suas terapias. Ninguém tem nada a ver com suas doenças. Muitas são doentes. A bailarina não tem que se preocupar só com ela, não. Ela tem que se preocupar com ela e com quem vai assistir à sua dança. Mas no Brasil se preocupam muito com as próprias fantasias...
Não se pode desmoralizar uma dança milenar. A dança do ventre não pertence mais aos países árabes. Ela pertence à humanidade. Nós não estamos fazendo comédia. Temos que respeitar as tradições e os costumes!
31 de maio de 2009
Meu Braço Esquerdo
Com o encerramento da enquete à esquerda, cujo objetivo era saber se outras pessoas concordavam comigo sobre o fato de que seu braço esquerdo dança melhor do que o direito, vejo-me na obrigação moral de explicar de onde surgiu tal idéia. É que há anos trabalhando com dança, assistindo a performances, vídeos, aulas, percebi que o meu braço direito freqüentemente* "desmaiava" durante algumas danças, especialmente no caso da dança do ventre.
Pensava que era coisa minha, fui até investigar se eu tinha algum problema neurológico. Uma vez um místico chegou a me dizer que minha energia vital não estava alcançando a extremidade de meu braço direito... Fiz o que pude e tratei de melhorar isso, fazer com que meu braço direito passasse a se comportar como deveria, participando ativamente dos movimentos de meu corpo. Não é fácil, devo dizer que constantemente preciso me lembrar disso e observar como anda meu pobre membro sonolento. E ainda hoje, após cerca de uma década de conscientização e trabalho árduo, de vez em quando pego o danado querendo desmaiar ou apenas se comportando como um sonâmbulo.
Se fosse um caso isolado, não mereceria espaço para comentário. Acontece que desde meados de 2001 venho observando o mesmo fenômeno estranho ocorrer com outras dançarinas. Primeiro vi algumas de minhas alunas apresentarem a mesma dificuldade em coordenar os movimentos do braço direito. Pensei que pudesse ser um problema metodológico de minhas aulas. Mas vendo alunas de outras professoras e muitas outras dançarinas de diversas formações apresentando a mesma anomalia cheguei a uma primeira conclusão. Não era exatamente o braço direito que tinha um problema. Era o braço esquerdo que praticamente "roubava a cena", vale a pena repetir: especialmente no caso da dança do ventre.
Fiquei intrigada e pensei em desenvolver uma pesquisa séria a respeito. Ainda bem que eu não me levei a sério. Por isso lancei a enquete engraçadinha que por coincidência está do lado esquerdo do blog (coisas da formatação). Ainda que o resultado não seja expressivo, surpreende que 44% das pessoas que votaram também acreditem que seus braços esquerdos dancem melhor do que os braços direitos. Só digo uma coisa: vale a pena observar! Seja qual for a explicação (estímulos do lado direito do cérebro, ou coisas do gênero), o fato de isso acontecer é no mínimo curioso. Para mim, é espantoso! E acontece muito, principalmente em improvisações.
Para finalizar, como não poderia deixar de ser, vou mudar completamente de assunto e indicar um filme de que me lembrei e que não tem nada a ver com tudo o que escrevi acima, muito embora o título tenha tudo a ver. É o filme My left foot, em portugês "Meu pé esquerdo". Nem que seja para que em uma dessas noites frias e milagrosamente chuvosas do cerrado brasiliense em plena época da seca, o filme acompanhado de um chocolate quente possa aquecer seu braço direito para que possa dançar melhor!!

*Eu sei que não se usa mais 'trema', porém sou uma conservadora e se eu tivesse uns 80 anos provavelmente ainda estaria escrevendo farmácia com 'ph', ok?




