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2 de abril de 2009

Quem são as mulheres árabes?


Meu post anterior abriu uma veia no feminismo incrustado no mundo ocidental, deixando escorrer a generalização, muito comum quando se pensa em contextos culturais. Eu estava ali, assumindo meu orientalismo, mas talvez devesse explicar melhor todo o ocorrido para que não restem lacunas nessa discussão.
O orientalismo tem definições amplas e pode ser melhor estudado a partir dos textos de Edward Said. Ele criou essa expressão que dá conta de uma série de práticas e opiniões formadas a respeito do mundo oriental, com ênfase nas abordagens sobre a cultura árabe. Muitas vezes as pessoas criam conceitos e esperam encontrar entre os árabes imagens, situações e eventos que não existem na vida real. É uma tendência a fantasiar. E quando a fantasia não está presente, a realidade pode ser frustrante. Eu utilizei o conceito durante muitos anos para falar sobre meu maior tema de pesquisa: a dança do ventre. Tentando desmistificar preconceitos e cristalizações. Mas fui a mais recente vítima do orientalismo de que tive notícia nos últimos tempos.
Como havia dito, fui assistir ao programa sobre o Kalam Nawaem esperando encontrar imagens das décadas de 1940 a 1960, porque o nome do documentário era "Rainhas da TV Árabe". Na minha mente as tais rainhas só poderiam ser aquelas que eu havia visto na televisão do Cairo e de Alexandria. Por quê? Porque eu sou o centro do universo. Então o mundo tem que corresponder às minhas expectativas.
Dei de cara com outra realidade. Pode ter o verniz estadunidense, o revestimento da ganância capitalista, o formato ocidental batido, mas era algo que eu consideraria impossível de acontecer na mídia árabe. Foi um susto. E lógico que antes de avaliar mais profundamente a questão, postei meus comentários com louvações à iniciativa, dando vivas à globalização, porque afinal de contas tenho o direito de ser público, apreciar, me deliciar e dispor de uma fatia do senso comum.
Porém, antes de me debruçar sobre este recente fenômeno do mundo televisivo dos países árabes com rigor acadêmico, gostaria de perguntar a vocês algumas coisas:
Quem são as mulheres árabes?
São mulheres oprimidas, vilipendiadas, infelizes? Quem disse? Quantas são? Onde moram? O que pensam sobre isso? O que pensam sobre as mulheres ocidentais?
Quem são as mulheres não-árabes?
Eu sou? Você é? O que podemos falar sobre as coletividades humanas?
Ando lendo sobre multiculturalismo e percebi com alegria que minhas más impressões a respeito de como esse assunto é tratado no Brasil não eram apenas fruto de minha tendência a criar polêmica. É que no texto maravilhoso de Vera Maria Candau no primeiro capítulo do livro Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas, está a explicitação de tudo o que eu andava sentindo. Simplesmente existem inúmeras maneiras de abordar o multiculturalismo e no Brasil temos uma base muito forte, mas apesar disso, nossos discursos e práticas ainda estão longe de aplicar os princípios da alteridade. As duas concepções de multiculturalismo mais presentes nas sociedades atuais são: a abordagem assimilacionista e a monocultura plural (termo cunhado por Amartya Sen, 2006).
A primeira propõe uma universalização e estratégias compensatórias, onde acaba se defendendo uma cultura comum e hegemônica, tirando a legitimidade das variações de linguagem, valores, crenças, saberes, etc. Enfim, para fazer parte do todo os indivíduos acabam por abandonar o que os torna singulares.
Já na segunda abordagem a ênfase está no reconhecimento das diferenças. Mas a desvantagem fica na tendência a criar uma visão essencialista e estática da formação das identidades culturais. Os grupos se dividem em diversos segmentos, criando "verdadeiros apartheids socioculturais" (pg.22).
Posso dar exemplos das duas práticas apenas a partir do raciocínio que venho desenvolvendo sobre as mulheres árabes. Num primeiro momento, quando fiquei feliz por vê-las integradas ao mundo globalizado da mídia, dei vivas, porque assim haveria uma universalização e eu me sentiria mais próxima daquelas mulheres. Elas estavam ocidentalizadas, uma estratégia compensatória, então meu primeiro pensamento foi: "Estão vendo? As mulheres árabes não estão mais tão diferentes de nós!". Num segundo momento, quando tento apontar que existem as mulheres árabes que não usam véu, as mulheres árabes que estudam, as mulheres árabes que ocupam cargos importantes, as mulheres árabes mães de família, as mulheres árabes que se masturbam (como mostrado no programa da GNT), as mulheres árabes que se filiam ao terrorismo, etc, etc, etc, estou praticando o multiculturalismo diferencialista (ou monocultura plural).
Difícil mesmo é alcançarmos a Interculturalidade...
Mas aí é outro texto. Ainda chegarei lá!!! Allah u Akbar!

28 de março de 2009

Conversa Mole? Só se for no Brasil...


Dia desses, vi que o canal GNT apresentaria um documentário em homenagem ao mês da mulher (março é o mês da mulher, os outros são de quem?). O que me chamou a atenção era o título do documentário: Rainhas da TV Árabe. Não pude assistir na primeira exibição porque tinha o aniversário de uma amiga, mas de pronto peguei os dias onde seria exibido novamente e anotei os horários.

Aguardei ansiosa ao grande dia e esperava encontrar alguma coisa sobre as atrizes, talvez algo falando sobre Fifi Abdo, da qual sou grande fã, apesar de ela dizer publicamente que prefere ser atriz a dançarina. Feio isso, não querer ser reconhecida pela dança, mas tudo bem, eu perdôo. Afinal a dança que ela traz em seu corpo prescinde de qualquer outro mecanismo para ser gostada. E suas opiniões pessoais realmente não interferiram em meu juízo de valor.

Fui surpreendida por um documentário que falava sobre o programa de televisão de maior audiência no mundo Árabe. É uma espécie de Saia Justa (aquele outro programa da GNT). Quatro mulheres de diferentes países árabes, uma delas sempre utilizando o véu para cobrir os cabelos enquanto as outras três se exibem em figurinos pra lá de ocidentais. Fiquei pasma! Além de amealhar uma audiência em torno de 200 milhões de telespectadores a cada programa, aquelas senhoras falavam sobre temas que me impressionaram, e eu que tinha ido ao Egito em 2005 e achava que sabia da vida de lá.

É que quando estive no Egito naquele ano, tinha a impressão de ter feito uma viagem no tempo. Acho que por isso cristalizei uma impressão de que desde aquela época nada teria mudado e se eu fosse novamente até lá, viajaria novamente no tempo e estaria com a sensação cultural de alguma década do século passado. Mas não! Graças aos deuses, o programa foi ao ar em 2006 e eu lamentei não ter testemunhado tudo o que ocorreu desde então.

No documentário vi algumas das reportagens das quatro apresentadoras do Kalam Nawaem. No Brasil traduziram o nome do programa para “Conversa Mole”. Que lástima! Meu amigo egípcio me disse que na realidade a tradução deveria ser “Conversa Delicada”. Também acompanhei a opinião do público a respeito do que era apresentado na TV. Os temas eram: masturbação, homossexualidade, terrorismo, cirurgia plástica, sexo pré-marital e educação sexual. O público se manifestava de variadas formas. Um telespectador chegou a enviar uma carta onde dizia que o lugar das apresentadoras era no inferno. Elas fizeram questão de ler a carta durante o programa, como forma de polemizar a respeito de atitudes como a daquele leitor que se dizia muçulmano. Elas questionavam se era correto que um adepto do Islã se comunicasse com elas em termos de baixo calão, praguejando e desejando o que existia de pior. Pensei comigo: corajosas, as meninas! Mais uma vez me orgulhei de ser mulher.

Passei a olhar no Youtube algumas entrevistas, embora eu não consiga entender muita coisa. Com a ajuda do meu referido amigo egípcio, assisti a uma entrevista de dois atores sírios onde diversos estereótipos da sociedade árabe eram discutidos em termos bastante sérios e profundos. Também fiquei muito feliz com a entrevista de Sami Yusuf, cantor de quem sou fã desde o primeiro contato nos programas de televisão egípcios de 2005. A entrevista dele foi mais fácil de entender. Yusuf não fala árabe e a entrevista foi em inglês. A temática não poderia ser diferente. Mais polêmica. As apresentadoras tocaram em vários pontos nevrálgicos do hábito que o cantor desenvolveu de abordar temas do Al Corão. Também perguntaram como ele conseguia cantar tão bem em árabe se não falava o idioma. Ele respondeu meio constrangido que estava aprendendo e que sua pronúncia era boa justamente por causa de seus estudos corânicos.





Estou em busca de imagens do programa onde a dança seja tema. Talvez seja pedir muito. O programa ainda nem completou 3 anos de existência e já fala de homossexuais e mulheres que se masturbam. Falar de dança ali ainda seria muito chocante! Está certo que nem tudo está às mil maravilhas, o homossexual que deveria comparecer ao programa foi ameaçado de morte e teve que ser entrevistado por telefone. A mulher que dava seu depoimento sobre masturbação estava no escuro, não se podia ver sua fisionomia. Mas ainda assim, dei vivas a tanta mudança de comportamento! Para algumas coisas a globalização funciona. Kalam Nawaem é um exemplo disso.

Talvez o melhor resultado que esse programa venha a alcançar é a mudança orientalista de nossas visões ultrapassadas a respeito da coletividade árabe. Eu mesma, que morei numa família do Cairo durante minhas pesquisas de campo, fiquei surpresa com as minhas reações em relação ao documentário. Esperava menos. Ainda bem que estive enganada. Al Hamdo LeAllah!!

24 de outubro de 2006

Do Corpo que Dança o Ventre


Uma dança exótica, sensual. Tambores hipnóticos e movimentos convulsivos dos quadris das dançarinas causam sensações difíceis de explicar. Algumas dizem que vicia. Não duvido. Aliás, talvez tenha sido a droga mais pesada exibida na novela “O Clone” em 2002. A overdose de dança do ventre não deixou margem de comparação com nenhuma outra dança já exibida em rede nacional. Antes disso, já tinha feito a cobra subir ralando o tchan.

Por trás dos bastidores, nenhum glamour. O próprio nome, dança do ventre, segundo dizem, foi um termo inventado no final do século dezenove, por um empresário judeu, com o objetivo de causar sensacionalismo na feira mundial de Chicago. Tornou-se febre nos cabarés da época e por causa disso, até hoje o estilo de show que apresenta a dançarina coberta de brilhos, tecidos finos e paetês é chamado "estilo cabaré", para desespero das puristas que praticam essa dança.

Já o estilo tribal, muito em voga desde os anos 90, resgata danças praticadas entre os beduínos, Berbers e Tuaregs. Incorpora, também, elementos de outras culturas, como o flamenco e a dança indiana. Apresenta trajes mais sóbrios, maquiagem ritualística e uma dança onde o foco está no movimento. Dançam mais para si mesmas do que para o público. Por ter sido desenvolvido a partir de uma pesquisa de um grupo dos Estados Unidos, é chamado “American Tribal Belly Dance” (dança do ventre tribal americana). Ah sim, é uma dança estadunidense, não nos enganemos!

As mulheres que praticam a dança do ventre no Brasil são, em sua grande maioria, adeptas do estilo cabaré. Apenas no ano de 2002 o estilo tribal chegou ao país. Ambos os estilos, em nosso país, passaram pelo filtro das estadunidenses. Nossa dança com véus segue o padrão estadunidense, com um tempero brasileiro, é claro, mas a primeira influência sempre vem de lá. Apesar de termos uma riqueza cultural inestimável, nossa baixa auto-estima nos impede de exercer uma autonomia de criação. Com o tribal, o mesmo processo se repete, embarcamos na pesquisa estadunidense. Uma lástima! Hoje vemos clones das dançarinas californianas espalhadas pelas várias cidades do Brasil. Será que a Glória Perez fez uma profecia quando escolheu o nome da novela? Dança do Ventre - Clone... Clone - Dança do Ventre... Ironias à parte me pergunto: qual o motivo de pegarmos carona nas tribos alheias, se temos um referencial tão vasto de danças, como as dos orixás e outras tantas indígenas e as tradicionais e populares?

Praticando a dança do ventre desde 1993, comecei a atuar profissionalmente em 1997. Resolvi desenvolver uma pesquisa profunda sobre essa dança. Minhas primeiras impressões não foram animadoras. Encontrei mulheres torturadas, infelizes, desgostosas com seus corpos e suas vidas. Algumas miseráveis, outras enlouquecendo. Levei esse estudo tão a sério que virou dissertação de mestrado. Foi um trabalho pesado porque quando comecei a pesquisar, em 2003, não havia textos acadêmicos sobre esse tema. Graças a iniciativas pioneiras, hoje podemos encontrar algumas boas pesquisas!

Escolhi praticar a dança do ventre por acreditar que ela me libertaria dos padrões impostos por danças que exigem desempenhos sobre-humanos e corpos moldados para sua prática. Também chamava a dança do ventre de “dança de bolso”, já que ela podia ser levada para inúmeros espaços, desde bares, restaurantes, barcos, teatros, casas, enfim, uma gama de possibilidades. Com o tempo, fui aprendendo que não era bem assim. Para tudo existe um preço (clichê, porém muito bem empregado aqui). Dependendo do local da apresentação o tratamento é o pior possível, a dançarina não é vista como artista, tem o status quase igual ao de uma prostituta. E, com a popularização dessa dança, também desapareceu a liberdade da forma física.

Antes da novela, era comum que eu escrevesse textos que explicassem o que era a dança do ventre. Hoje não é mais necessário explicar, já que a grande maioria da população pensa que se tornou expert em cultura árabe e, por tabela, dança do ventre. Confesso que preferia minhas antigas referências às mulheres misteriosas com roupas esvoaçantes e brilhantes, cabelos compridos, muita maquiagem, causando espanto, admiração e muita curiosidade a respeito daquilo que faziam.

Os corpos das dançarinas de hoje precisam obedecer à estética de modelos e atrizes. As barrigas, que eram até bem vistas por causa das tremidas e ondulações, agora são um incômodo que precisa ser retirado com urgência. A minha barriga, com estrias de uma linda gravidez esteve tão em foco depois da novela que ganhei de presente uma plástica de abdômen enquanto fazia um show em 2002. Fiquei pasma em pensar que aquela pessoa, que me ofereceu um presente tão caro, provavelmente não tinha prestado atenção à minha dança, porque minha barriga se sobressaiu. Não houve grosseria, muito pelo contrário, a pessoa me cobriu de gentilezas dizendo que eu dançava muito bem e merecia ter um corpo esculpido. Por algum tempo fiquei em dúvida. O desespero em atender ao padrão das mídias é um vírus que poderia a qualquer momento me contaminar. Mas fui imunizada por um texto que circula pela internet e que dizem que foi o Arnaldo Jabor que escreveu, embora nada que circule na rede tenha a autoria confirmada... Independente disso, o que me chamou atenção no tal texto foi a parte onde ele dizia que as mulheres querem ser mercadorias sedutoras, disputadas e consumidas como um bom eletrodoméstico ou uma BMW, “porque ‘objeto’ é feliz e não sofre”.

Constatei embasbacada que a minha dança da libertação feminina poderia ser a grande armadilha que me levaria a querer ser igual às mulheres das revistas, das novelas e comerciais de cerveja. Lembrei da depressão pela qual já havia passado, na época em que fazia tantos shows que perdi a noção do que acontecia em minha vida. Dependendo da apresentação eu conseguia me sentir como uma peça de carne na vitrine de algum açougue, um pianista de churrascaria, malabarista de circo, dançarina em programa de televisão, enfim, nunca chegava a hora em que eu seria uma deusa etérea em contato com o divino feminino. E nunca chegaria, se eu não mudasse o rumo das coisas.

Como professora, posso dizer que minhas alunas também estão torturadas por causa de seus corpos. Sonham em retirar dobras, lipoaspirar barrigas imaginárias. Eu sempre as incentivei a se aceitarem como são, até porque são realmente lindas. Tenho tentado ampliar os horizontes de nossos grupos de estudo, mas para isso é preciso sair um pouco do tema ‘dança do ventre’, explorar o universo feminino a partir de novas referências. Danças de Orixás, Danças Indígenas, mas principalmente aquela Dança Interna, onde cada uma de nós pode criar a partir de um repertório pessoal, têm sido o bálsamo de que precisávamos para reencontrar nossas essências. Como coreógrafa, percebo que esse caminho alternativo tem melhorado a impressão que a dança do ventre causa no público.

Venho realizando esse trabalho há um certo tempo, e nem assim consegui ficar imune aos efeitos da “globalização” da dança do ventre. Descobri, com muito entusiasmo, outras iniciativas parecidas com a minha. O sagrado é em cada uma de nós. O acesso não está automaticamente ligado ao aprendizado de uma dança, mas na tomada de consciência e no despertar. Um pequeno esforço é necessário. Estar atenta é tarefa constante.

Quanto à minha barriga... Bem, ela virou patrimônio das mulheres que comigo se identificam. Um dia, a mãe de uma das minhas alunas disse que, quando me viu dançar, ficou de alma lavada. Ela nunca imaginou que poderia deixar de lado o complexo de ter barriga e dançar. Depois do meu show, percebendo que eu estava feliz e segura, resolveu que também poderia. Ela não foi a primeira e não será a última a se sentir assim. Portanto, apesar de hoje em dia minha barriga estar muito menor do que na época da foto que ilustra o presente texto (emagreci 9 kilos depois de aprender a comer no Egito e voltar a malhar), não pretendo eliminar completamente um instrumento tão eficaz de elevação da autoconfiança feminina. Minha barriga é sagrada, ela é o meu ventre. O termo dança do ventre adquire, assim, uma conotação absolutamente positiva.


A autora e sua barriga