Mostrando postagens com marcador Multiculturalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Multiculturalismo. Mostrar todas as postagens

17 de novembro de 2009

O que é a dança do ventre?


Para começar: é dança do ventre ou Dança do Ventre? Dança do Ventre ou Dança Árabe? Dança Árabe ou Middle Eastern Dance? Middle Eastern Dance ou Raks el Sharki? Raks el Sharki ou Belly Dance? Belly Dance ou bellydance? Minha gente, isso importa?

As pessoas que estudam dança gostam de definições "toscas e bizarrescas" (para utilizar o título de um blog super interessante) para se apegar! Por sinal, a história da dança parece mais um agregado de almanaques de fofocas e outras informações que só interessam aos dançarinos que aparecem nelas. Muita gente de prestígio aponta que os críticos de dança foram os grandes responsáveis pelas compilações a respeito da dança ocidental. Eles e seus juízos e gostos. Porque se ficasse registrado que algo não era bom, ou que era maravilhoso, isso entrava para a história oficial.

Mas pra que estou me perdendo tanto? Para dizer que com a dança do ventre não é diferente. Aliás, pesquisar a dança do ventre é estar sempre à beira de uma armadilha. Eu caí em uma arapuca bem montada quando em 2005 saí divulgando que a "primeira" mulher a dançar a dança do ventre no mundo ocidental havia sido uma tal de Little Egypt. Me dei mal. A fonte de onde eu tirei a informação tinha citado outra fonte que citava a mesma fonte anterior. Estranho não? Uma metacitação? Tipo: eu combino com a Paula Cunha que a gente vai publicar que "não-sei-quemzinha" foi a primeira pessoa a dançar Khaleegee no Brasil. Aí eu coloco a Paula como minha fonte e ela me coloca como fonte dela. Foi tipo assim que aconteceu. Ainda bem que encontrei uma fulana disposta a desmentir essa história. Donna Carlton publicou um livro muito bem documentado, "Looking for Little Egypt". A conclusão: Little Egypt foi uma farsa bem montada!

Quando lancei a enquete "o que é dança do ventre", não imaginei que os resultados seriam aqueles. Ainda bem! Surpresa... 39% das pessoas afirmaram que a dança do ventre é uma dança árabe.

Ora, pessoal, e os outros? A Grécia, o Irã, a Turquia... A dança do ventre não é uma dança árabe, a cultura árabe faz parte dela, mas não a engloba. Ela vai além... Péeeeeinnn!!! Resposta errada!

32 % disseram que é uma dança sensual. Concordo! Bingo! É também.

As outras opções não foram muito expressivas, e algumas eram provocações.

Apenas 17% acertaram, respondendo a famosa NDA (nenhuma das anteriores). Por quê? Porque nenhuma das anteriores de fato consegue definir o que é a dança do ventre. Gosto da minha definição de que a dança do ventre é um "além", não se restringe a ser árabe, oriental, ocidental, sensual, porém é tudo isso e não é nada disso. Mesmo assim vale destacar algumas definições que considero bastante aceitáveis, principalmente do ponto de vista de quem define. A melhor de todas, para mim, é a de Anthony Shay:

Na prática, a dança solo improvisada, tanto para homens quanto para mulheres, é a forma primária de dança, com muitas variações individuais e locais, por todo o Egito. Essa forma de dança é talvez a mais mal interpretada tradição de dança no mundo. Em uma de suas numerosas formas é conhecida como dança do ventre, ou danse orientale ou raqs sharqi, como seu praticante preferir.

Adoro isso: "dança solo improvisada". Mas, novamente não basta. Estive recentemente em um palco. Experiência intensa, boa, excelente! Eu fiz uma dança solo quase improvisada, mas tinha ao redor um corpo de baile e diversas outras danças que compunham o espetáculo. Mais uma vez a dança do ventre vai além. Ela pode ser recriação de muitas coisas. Vi coisas lindas se materializando diante de mim: deusas egípcias da antiguidade representadas de inúmeras formas, mulheres lindas de todas as idades e tipos físicos se deleitando ao dançar, brincadeiras entre uma bailarina e um músico egípcio, que deixaram a platéia extasiada! Lindezas que só a dança do ventre é capaz de fazer. Viva o Ayuny (escola onde tenho dado aulas)! Viva Ankh (o espetáculo da escola)! Viva a dança!

E até a próxima enquete e o próximo post.

2 de abril de 2009

Quem são as mulheres árabes?


Meu post anterior abriu uma veia no feminismo incrustado no mundo ocidental, deixando escorrer a generalização, muito comum quando se pensa em contextos culturais. Eu estava ali, assumindo meu orientalismo, mas talvez devesse explicar melhor todo o ocorrido para que não restem lacunas nessa discussão.
O orientalismo tem definições amplas e pode ser melhor estudado a partir dos textos de Edward Said. Ele criou essa expressão que dá conta de uma série de práticas e opiniões formadas a respeito do mundo oriental, com ênfase nas abordagens sobre a cultura árabe. Muitas vezes as pessoas criam conceitos e esperam encontrar entre os árabes imagens, situações e eventos que não existem na vida real. É uma tendência a fantasiar. E quando a fantasia não está presente, a realidade pode ser frustrante. Eu utilizei o conceito durante muitos anos para falar sobre meu maior tema de pesquisa: a dança do ventre. Tentando desmistificar preconceitos e cristalizações. Mas fui a mais recente vítima do orientalismo de que tive notícia nos últimos tempos.
Como havia dito, fui assistir ao programa sobre o Kalam Nawaem esperando encontrar imagens das décadas de 1940 a 1960, porque o nome do documentário era "Rainhas da TV Árabe". Na minha mente as tais rainhas só poderiam ser aquelas que eu havia visto na televisão do Cairo e de Alexandria. Por quê? Porque eu sou o centro do universo. Então o mundo tem que corresponder às minhas expectativas.
Dei de cara com outra realidade. Pode ter o verniz estadunidense, o revestimento da ganância capitalista, o formato ocidental batido, mas era algo que eu consideraria impossível de acontecer na mídia árabe. Foi um susto. E lógico que antes de avaliar mais profundamente a questão, postei meus comentários com louvações à iniciativa, dando vivas à globalização, porque afinal de contas tenho o direito de ser público, apreciar, me deliciar e dispor de uma fatia do senso comum.
Porém, antes de me debruçar sobre este recente fenômeno do mundo televisivo dos países árabes com rigor acadêmico, gostaria de perguntar a vocês algumas coisas:
Quem são as mulheres árabes?
São mulheres oprimidas, vilipendiadas, infelizes? Quem disse? Quantas são? Onde moram? O que pensam sobre isso? O que pensam sobre as mulheres ocidentais?
Quem são as mulheres não-árabes?
Eu sou? Você é? O que podemos falar sobre as coletividades humanas?
Ando lendo sobre multiculturalismo e percebi com alegria que minhas más impressões a respeito de como esse assunto é tratado no Brasil não eram apenas fruto de minha tendência a criar polêmica. É que no texto maravilhoso de Vera Maria Candau no primeiro capítulo do livro Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas, está a explicitação de tudo o que eu andava sentindo. Simplesmente existem inúmeras maneiras de abordar o multiculturalismo e no Brasil temos uma base muito forte, mas apesar disso, nossos discursos e práticas ainda estão longe de aplicar os princípios da alteridade. As duas concepções de multiculturalismo mais presentes nas sociedades atuais são: a abordagem assimilacionista e a monocultura plural (termo cunhado por Amartya Sen, 2006).
A primeira propõe uma universalização e estratégias compensatórias, onde acaba se defendendo uma cultura comum e hegemônica, tirando a legitimidade das variações de linguagem, valores, crenças, saberes, etc. Enfim, para fazer parte do todo os indivíduos acabam por abandonar o que os torna singulares.
Já na segunda abordagem a ênfase está no reconhecimento das diferenças. Mas a desvantagem fica na tendência a criar uma visão essencialista e estática da formação das identidades culturais. Os grupos se dividem em diversos segmentos, criando "verdadeiros apartheids socioculturais" (pg.22).
Posso dar exemplos das duas práticas apenas a partir do raciocínio que venho desenvolvendo sobre as mulheres árabes. Num primeiro momento, quando fiquei feliz por vê-las integradas ao mundo globalizado da mídia, dei vivas, porque assim haveria uma universalização e eu me sentiria mais próxima daquelas mulheres. Elas estavam ocidentalizadas, uma estratégia compensatória, então meu primeiro pensamento foi: "Estão vendo? As mulheres árabes não estão mais tão diferentes de nós!". Num segundo momento, quando tento apontar que existem as mulheres árabes que não usam véu, as mulheres árabes que estudam, as mulheres árabes que ocupam cargos importantes, as mulheres árabes mães de família, as mulheres árabes que se masturbam (como mostrado no programa da GNT), as mulheres árabes que se filiam ao terrorismo, etc, etc, etc, estou praticando o multiculturalismo diferencialista (ou monocultura plural).
Difícil mesmo é alcançarmos a Interculturalidade...
Mas aí é outro texto. Ainda chegarei lá!!! Allah u Akbar!